Seja bem vindo!!!
-Entre,
-Tire os sapatos,
-Sente-se e fique à vontade.
-vou pôr uma música.
-Aceita um café?
- Gosta de livros?
- escolha um e vá folheando,
-volto já, com o café.
Alexandre Pedro
e-mail: alexandre.eells@gmail.com

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sábado, 29 de janeiro de 2011

Rosas


Rosas

Dispo a rosa ,
Pétala por Pétala.

Tiro-lhe o galho,
Tiro-lhe as folhas,
Rasgo-lhe do caule,
Sangramos.
Dedico-lhe à mulher,
Sagrada.

Campo minado.

A rosa úmida
em gotículas
Salivadas.
A rosa crua
em sua genitália.

Pousa quente em minhas mãos,
Trêmula.
Num cálido perfume,
Gêmula.

Rompo-lhe o hímen,
mexo, rasgo,
esfrego, vibra,
cheiro, amasso,
pego, grita,
dedos, línguas,
pulsa, expulsa,
pele, repele,
espirra, goza,
néctar em mel.

Estirados num canteiro,
molhados e com cheiros
das Rosas, finalmente nua.

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

4.5.7


São Paulo
...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro

Alexandre Pedro

*Fotografia de Rafael Matsunaga
Título: Fotografando São Paulo - 2007

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

sábado, 22 de janeiro de 2011

Esvair-se Transbordando


Das narinas nasceram ramagens que lhe percorriam o corpo frígido,
envolvendo-o completamente num casulo esverdeado e fétido.
Da boca vertiam vermes como se fossem alimentos, que dela se alimentavam.
Vermes talhavam seu belo rosto que beijado fora noutros dias tão brandos.
Nos olhos nenhuma vida,
Nenhuma luz.

Dos pulsos duas fendas verticais por onde expulsara-lhe a vida.
Nos ouvidos apenas o silêncio e o princípio de gemidos distantes a se aproximarem.
Em sua genitália nem mais a vivacidade da cordial jovialidade.
No peito um coração esvaído de toda vontade, angustiado e reduzido
entre o primeiro e o ultimo pulsar.
Na mão direita um bilhete interrompido por um adeus.
No chão um tapete de confetes colorindo e alegrando a cena.
Na esquerda, uma aliança pende da mão repousada nas paredes gélidas de uma banheira branca ensangüentada
e inundada de vida.

Alexandre Pedro

***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

domingo, 16 de janeiro de 2011

...no escuro.

...a noite não escurece.
...a noite não cai,
... e nem me cai,
...a noite não me desce.
...me derruba!
...a noite dói!
Alexandre Pedro

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"...eu e todos meus eus..."


Início de 2011.
Como prometido, venho partilhar meus textos com você, caro amigo leitor.
Muito lhe sou grato pela visita, mas te peço, encarecidamente, que deixe um comentário, positivo ou negativo, não importa...serão bem vindos.
Solte o verbo! E não se cale diante das minhas palavras pois, sem você, de nada valerão, não farão sentido algum.
Curso o 4º Semestre em Letras, e o ato de escrever me é novo. Sim, me considero um escritor, mas tenho apenas 5 meses.
Meu primeiro poema data se no mês de setembro de 2010, e em novembro participei de um Concurso de Produção de Textos na Universidade Paulista e fui premiado em três poemas.
Meus textos foram registrados na Biblioteca Nacional, e por isso demorei tanto pra divulgá-los, mas agora estou aqui, dividindo minhas palavras com você.
Obrigado pelo carinho,incentivo, e confiança!
Alexandre Pedro



O Poeta e o Poema

Quem expressa?
O poeta ou o poema?
O poeta expressa a palavra,
ou a palavra expressa o poeta?
O poeta sem palavras não se expressa.
A poesia tem pressa,
O tempo passa depressa,
As palavras o desprezam.

Rima, Ritmo e Métrica.

Qual sua melodia?
Qual sua dança?
Quais suas medidas?
Onde se escondem?
Voltem depressa e façam do poeta um personagem
que o engane e o manipule,
e o faça menino, um mamute.
Transborde-o.
Que só assim, um adulto sob pressão,
pode escrever algo que preste.

Alexandre Pedro


***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.
http://www.bn.br/portal/index.jsp?plugin=FbnBuscaEDA&radio=CpfCnpj&codPer=15918944842

domingo, 2 de janeiro de 2011

Através dos bosques (curta- metragem) - Júlio Cortázar - Otávio Mendes

Curtametragem inspirado no conto "La continuidad de los parques" de Julio Cortazar.

Trabalho universitário de conclusão do 2º semestre de 2010 do curso de produção audiovisual.

Direção: Matheus Mardegan e Otávio Mendes


Continuidade dos Parques


Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns arrendamentos, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde, e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava, e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da colina.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse, sem dó nem piedade, interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Do caminho oposto, ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um longo corredor, uma escada acarpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
Júlio Cortázar ( 1914 - 1984 ).
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Neste conto Júlio começa narrando a perspectiva de um personagem (O Leitor) que narra a história de um romance infiel, em que o casal traça um plano para assassinar o marido, e eis que o personagem "amante", percorre o caminho descrito pela mulher "amante/esposa", e se depara com a cena inicial, onde o personagem que lê e narra a história ao leitor, é o próprio marido. E que está sentado na poltrona verde aveludada, lendo o romance à nós-leitores. Ou seja, o personagem se torna real; sai de dentro do livro para assasinar o Leitor-marido.
Por Alexandre Pedro.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Charles Baudelaire - O Albatroz


Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao próncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.


Poema extraido do livro Les fleurs du mal (As Flores do Mal),1857.
Livro o qual Baudelaire revela como sendo o livro que dá vazão a todo seu pensamento, todo seu coração, toda sua religião (travestida), todo seu ódio.

*Tradução de Ivan Junqueira

domingo, 19 de dezembro de 2010

Rosas - Alphonsus de Guimaraens


Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Louis Aragon - As Realidades


Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda ela está
a re a re a realidade
Na noite era uma vez
Uma realidade que sofria de insônia
Então chegava a madrinha fada
e realmente levava-a pela mão
a re a re a realidade

No trono havia uma vez
um velho rei que se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade

CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.

Tradução de Roberto Schmitt-Prym
Louis Aragon (Paris, 1897 - 1982)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PENETRAÇÃO DO POEMA DAS SETE FACES


(A Carlos Drumond de Andrade)

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

Elisa Lucinda

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Resenha - O Cheiro do Ralo




Para que se chegue ao desejado, faremos uma prévia sobre a vida do autor de “O CHEIRO DO RALO”, Lourenço Mutarelli, e assim entender um pouco sobre o romance, e poder discorrer sobre o livro e filme.
Mutarelli nasceu em São Paulo no mês de abril de 1967, logo após o golpe militar no País. Cursou a Faculdade de Belas Artes, queria ser artista plástico, mas sua vontade mesmo era pintar palavras. Trabalhou três anos com Mauricio de Sousa como cenarista e neste período criou o personagem “cãozinho sem pernas”.
Nesta sua trajetória produziu histórias em quadrinhos, durante toda a década de 80, e ele mesmo fez as distribuições, uma vez que as editoras estranhavam seus temas e não queriam arriscar com os projetos.
Seus primeiros experimentos são OVER-12, e SOLÚVEL (1988-1989), com uma tiragem mínima de 500 exemplares, que hoje estão espalhados nas mãos de fieis leitores.
Em 2002, lançou “O CHEIRO DO RALO” seguido de “ JESUS KID” de 2004, “O TEATRO DAS SOMBRAS” de 2007,“A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA” de 2008, “MIGUEL E OS DEMÔNIOS” de 2008, “O NATIMORTO” de 2009 e “NADA ME FALTARÁ” de 2010.
Nas páginas que seguem, falaremos sobre o livro “O Cheiro do Ralo”, e sobre sua adaptação para o cinema.



O CHEIRO DO RALO: O LIVRO

Caro Lourenço,
Esse aqui é só pra te dizer que curti pra caramba
“O Cheiro do Ralo”.Li com muito gosto, envolvido até o osso.
O livro tem um pique de gibi, mesmo sem ter os desenhos.
É engraçado isso...
Engraçado também a gente ir simpatizando e mesmo
torcendo pelo narrador, mesmo ele sendo meio detestável.
(...) Obrigado por me deixar ler antes mesmo da publicação.
Desculpe a demora em dar retorno,
isso se deve à minha desorganização crônica.
Na verdade li já faz algum tempo,

mas só agora parei pra te dizer o quanto apreciei”.


Um grande abraço do
Arnaldo Antunes


O livro conta o dia-a-dia de um homem de classe média que passa seus dias negociando bugigangas em seu escritório de antiquidades.
O banheiro de seu escritório tem um problema com um ralo hidráulico, e todos que adentram o espaço, o personagem se sente na necessidade de explicar-lhes a causa do mau cheiro, o que nos dá a impressão de que ele tem um pudor, uma certa vaidade, ainda.
Este personagem, anti herói, que propositalmente não tem nome no livro, apenas se parece com o cara do comercial da Bom Bril. Ele está em conflitos consigo mesmo por não saber se há um passo à frente; sem ao menos perceber que não sabe saber. A ausência do nome não está somente no protagonista, mas em todos os personagens, talvez para que encontremos neles, um auto-retrato da nossa sociedade.
O personagem principal tem uma noiva que aguarda ansiosamente pelo casamento, pois, “os convites estão na gráfica”, não se conforma com a atitude do futuro marido que resolvera de repente cancelar o casamento.
O livro é narrado em primeira pessoa, porem o narrador cede sua voz para dar fala a outros personagens. O livro vai discorrendo de cena em cena, e cada personagem; dos mais variados tipos de personalidade, entram na sala do protagonista na intenção de vender suas bugigangas.
Cada um desses personagens adentra o escritório e se depara com um cara frio, sarcástico, irônico e que se satisfaz ao ver o próximo implorando por seu dinheiro e humilhando-se.
O protagonista sem nome vive entre sua casa, o trabalho e uma precária lanchonete, onde fica fascinado por uma Bunda, sim uma Bunda, com letra maiúscula por que não se trata simplesmente de uma bunda, e sim de uma bunda personalidade criada por ele, através da bunda. Para o protagonista não interessa a cara da personagem, só a bunda.
Tal Bunda é da inocente garçonete que vive lendo “Revistas dos Astros” e se desmancha melindrosamente ao ganhar balas de framboesa.
Apaixonado pela Bunda, o personagem começa freqüentar a lanchonete, e tudo que acontece de ruim ele coloca a culpa o ralo. O que ocorre é que a comida servida na lanchonete é péssima, e ele chega a se perguntar, “se eu comer esta porcaria, o ralo vai feder mais”, ainda sim, ele prefere que o ralo feda.
As pausas e mudanças de cenas no livro são dadas por espaços entre um diálogo e outro, como se fossem quadrinhos retirados de gibis. Os diálogos são sempre iniciados pelo protagonista, ele quem dá as cartas, dele é a voz principal, ele controla a narrativa e cada desenlaçar dela. Ele entra, ele sai.
Não é possível analisar o tempo que transcorre a história, de repente uma semana, ou alguns dias, o que se deve pensar é no tempo psicológico, em que o protagonista vive uma busca em criar uma identidade social que fora perdida sem a ciência do mesmo.
E com isso o protagonista sem nome embarca numa paranóia de que o ralo é um portal para o inferno. Se sente vigiado, mas percebe que faz parte desse ralo, desse inferno, e quando resolve fechar o ralo devido ao mau, tudo começa dar errado, e ele se vê na necessidade de reabrir o ralo para poder respirar, como se sua essência estivesse no ralo.
Nessa tentativa de criar uma identidade e de preencher uma ausência, ele resolve, a partir de um dos negociantes que lhe vende um olho de vidro, e um outro que lhe vende uma perna, que irá reconstruir seu pai ausente. Seu pai Frankenstein.
Um pai que perdera antes mesmo de o ter. E constrói em sua mente a imagem de um pai. A figura masculina representa a sociedade machista, as mulheres são apenas objetos. Coisas.
Uma monotonia e solidão se instala na vida do protagonista, que sozinho está, e sozinho é. Vaga vazio entre sua casa, seu trabalho e a lanchonete.
Num descuido, acaba dizendo à Bunda que pagaria para tê-la, o que a ofende, pois a Bunda parece estar apaixonada por ele e diz que se entregaria gratuitamente. Esse fato não agrada o protagonista, pois para ele a Bunda só terá o valor se ele pagar por ela. “Coisificando-a”, como tudo a que ele se apropria.
Ofendida ela foge, e só aparece quando, sem dinheiro e desempregada, aceita a oferta de se mostrar a ele por dinheiro. Então, ele a abraça a moça, a Bunda, e chora. Chora da condição em que está, da condição em que o ser humano vive, da humilhação, de ser tão pouco.
Destampa o ralo e respira. Se vê no escuro do ralo, e se lembra de uma tela de Caravaggio, em que Narciso olha um lago, mas este ralo não tem reflexo, só o breu que é o seu “eu”.
O brilhante autor faz interferências durante todo o livro e nos remete a outros escritores e compositores em um texto todo entrecortado por citações, o que faz do livro O Cheiro do Ralo um livro para ser lido com cuidado e atenção.
A maneira como o escritor nos dá a narrativa nos faz ler de forma rápida e intensa, mas ao mesmo tempo, exige de nós cuidado, para nada escapar à sensibilidade.
Com um texto rico em todos os sentidos, precisamos de um olho mágico ou uma lupa para não deixar passar nenhum detalhe.

Ela entra, ela treme, ela veio trazer a ele sua única verdade, ela atira, ele sangra, se esvai.
Tudo prenuncia um fim. A narrativa se fecha e numa passagem da metalinguagem para o metafísico, o autor lamenta ao leitor por não ter escrito o livro “O cheiro do ralo“.



“Não há luz.
Era tudo mentira.
Desse lado ninguém espera por mim.
Ninguém me guia.
Pois o caminho não dá pra errar.
Caio.
O Caminho é a queda.
A queda me traga como um ralo.
(...)
Eu não quero ir.
Mas o abismo me engole.
Eu queria ficar”.

Lourenço Mutarelli.
O Cheiro do Ralo.





O CHEIRO DO RALO: O FILME


Sob direção de Heitor Dhalia, roteiro de Marçal Aquino, e estrelado por Selton Mello, que ao ler o romance ( num vôo ) se interessou imediatamente por um dos papeis, ligando para Lourenço Mutarelli e lhe sugerindo a realização de um longa.
Diferente do livro, o filme traz o protagonista de “O CHEIRO DO RALO”, com características mais aprofundadas. Agora o anti-herói tem nome, nome este que homenageia o autor, Lourenço Mutarelli, e que também está num dos papeis, o segurança. Mas as diferenças terminam assim que começam.
Narrado em primeira pessoa, com recorte entre as cenas, a história se passa em algum lugar da cidade de São Paulo, e são ordenadas pelo narrador, que permite a entrada de cada personagem em cena.
Ele entra. Ele sai.
A fotografia externa e interna foi feita a partir do uso de uma lente amarelada, em que o diretor opta para dar ar de envelhecido, encardido, desbotado. Assim como num poema a sensação através do formato.
A cidade é revelada vazia, com resíduos de uma sociedade à beira do caos, paredes pichadas, mendigos na calçada. Do lado de dentro, a mesma câmera amarelada mostra em particular a vida do protagonista, Lourenço, comerciante de compra e venda que passa os dias se satisfazendo em explorar e humilhar seus clientes; quanto maior a necessidade, maior a humilhação que Lourenço os submete.
A luta travada entre o protagonista e entre o ralo do seu banheiro, tende a explicitar a sociedade que vivemos, vendendo a preços baixos o que não tem valor, a dignidade. E pagando por bundas, num país de bundas.
A sensação do poder do dinheiro o leva por caminhos estreitos, que vão se afunilando até chegar em si próprio, e questionar-se se tudo o que tem é realmente seu, e até que ponto o dinheiro pode comprar, pois a ausência do pai nesta hora urge e ele tenta reconstruir a figura materna. Para assim ter uma história, a sua história.
As personagens são tipos, e cada um que chega para negociar perde parte de si, pois até de suas falas, seus sotaques, gírias, expressões, Lourenço se apropria.
- A vida é dura!
Tal tipificação começa na ausência de nomes. “A Drogada”, “A Noiva”, “O Segurança” , “A Bunda”, são nomes que o leitor-expectador tem que atribuir aos personagens, uma vez que estes não têm, e quem tem nome, no caso a garçonete, é impronunciável.
Até sua empregada doméstica que trabalha há 8 anos, quando pronunciado seu nome, ela o corrige dizendo que seu nome não é este, e sim aquele.
“A Drogada” tem papel fundamental no desfecho da narrativa, e é quem na verdade, consegue de algum modo fazer o anti-herói olhar para si mesmo, e se encontrar.
Mas ele não queria, e se arrasta até o ralo, para tentar resgatar o que lhe foi tirado, o seu “eu”.

- “E então, ninguém entra, ninguém sai”.

O longa participou de vários Festivais, levando os prêmios de melhor direção, melhor ator – Selton Mello, menção honrosa a todo elenco pela crítica, e muito bem elogiado pela crítica americana.
De certa forma, Mutarelli personifica em seus personagens, retratos da sociedade contemporânea: o trágico movido à decepções, fracassos e insegurança de um mundo ficcional todo desprovido de concepções ético-morais.
Por diversos ângulos de percepção da trama, e da mesma forma que o protagonista acaba por habituar-se e algumas vezes gostar do cheiro do ralo, o leitor também se habitua com seus modos mesquinhos, manipuladores e egoísta, e acaba por sentir o cheiro do ralo, e não pode dizer que não gosta. E você, gosta?

É um auto-retrato com essência da raça humana em questão.
Ficha técnica – O Cheiro do Ralo

Brasil, 2006 – 95 min
Diretor: Helio Dhalia
Roteiristas: Marçal Aquino e Heitor Dhalia
Produção Executiva: Matias Mariani, Marcelo Doria, Rodrigo Teixeira
Produção: Heitor Dhalia, Joana Mariani, Marcelo Doria, Matia Mariani, Rodrigo Teixeira.
Em associação com : Lula Franco, Patrick Siaretta, Selton Mello
Empresas Produtoras: Geração Conteúdo, Primo Filmes, Branca Filmes, Telelmage, Sentimental Filmes e Mundo Cane Filmes
Fotografia: José Roberto Eliezer, a.b.c.
Música: Apollo Nove
Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Fabiana Gugli, Mario Schoemberger, Martha Meola, Flávio Bauraqui, Suzana Alves, entre outros.

Bibliografia - Lourenço Mutarelli

A Arte de Produzir Efeito Sem Causa (Companhia das Letras)
O Cheiro do Ralo (Devir Editora)
O Natimorto (DBA)
Jesus Kid (Devir Editora)
Miguel e os Demônios (Companhia das Letras)
Nada me Faltará (Companhia das Letras)
Quadrinhos:
A Caixa de Areia ou Eu era Dois em Meu Quintal
Transubstanciação
Sequelas
A Confluência da Forquilha
Mundo Pet
O Dobro de Cinco
O Rei do Ponto
A Soma de Tudo I
A Soma de Tudo II
Desgraçados
Over-12
Impublicáveis
Resignação
Solúvel

Esta resenha ( TIL ) foi solicitado pelo meu curso de Letras 3º Semestre - Unip Alphaville.
Sob Orientação Profª Janaína Arruda.
E grande ajuda da Leca, Alessandra Paulo. Quanta paciência, Anjo, obrigado!!! ( cheio de vírgulas ) rs.
Novembro - 2010.
Alexandre Pedro

domingo, 12 de dezembro de 2010

Manuel Bandeira - Unidade


Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste!
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas
os seus mormaços
os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da
unidade.

" Neste poema Manuel Bandeira fala da relação da caneta, instrumento do poeta, com o próprio poeta. A caneta que reclama o vazio de estar só, e o poeta que chega abruptamente e afaga a caneta, e esta que sente o calor de suas mãos, e se sente como uma seta de fogo.
Até que a inspiração, vem vindo, vem vindo de muito longe e se funde aos dois ( poeta e personagem - caneta ), e explodem em orgasmos, o POEMA. Fundidos num só SER..."
Alexandre Pedro

sábado, 11 de dezembro de 2010

Se descobrir. Ou, abrir as cortinas.


Final de ano chegando, quantos livros lí em 2010, e quantos vou ler em 2011. E quantos tirarei proveito e quantos me farão dormir, e dormir?
Sei que muitos me ensinarão, acho que de tudo se tira proveito, inclusive dos fracassos. Mas o que é o fracasso na Literatura?
A literatura só acrescenta, e minha proposta para 2011 são meus textos, até então não divulgados em Blogs.
Quero partilhar minhas palavras com meus amigos, há muito anseio por isso, mas devido aos registros destes, não foi possível ainda a divulgação.
Mas aguardem, tenho algo à mostrar!!! Algo que me toma, me dá força, e explode em palavras....e palavras são armas que uso ao entrar no campo desconhecido do ficcional; e o que é a ficção, se não real?
Participei em um Concurso de Escrita, e fui contemplado em três poemas, os quais postarei em breve por aqui, só estou aguardando os meios legais de fazer.
Se for um fracasso, acredito não ser, mas estamos à ser conjugados, esporre, grite, mas de alguma forma se expresse. Você e eu precisamos disso.
Sou um cara que nunca escreveu nada até três meses atrás. E não consigo parar, escrevo compulsivamente,e é hoje minha maior diversão.
E escrevendo me encontro, e tenho coragem de dar minha cara à tapa. E é isso que estou fazendo. BATA, MAS ME LEIA !!!
Muito prazer,
Alexandre Pedro

domingo, 21 de novembro de 2010

O bicho - Manuel Bandeira



Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.


No poema o poeta vê um homem revirando o lixo em busca de comida. O poeta compara o homem ao animal, que "devora" o lixo-alimento com voracidade, diferente do modos do homem-humano se alimentar, Degustar. E ao final do poema, ele mostra a degradação do homem, em direção à animização.

Não era um cão - era menos que um cão.
Não era um gato - era menos ainda que um gato.
Não era um rato - era ainda menos, menos ainda que um rato.
E se volta a Deus...desacreditado e inconformado.
"O bicho, meu Deus, era um homem".

PS. Impossível não me sentir na obrigação de pedir-lhes desculpa pelo confronto entre um poema lindo do Bandeira, e esta imagem forte de uma realidade que melhor seria não existir. Mas ela existe e não podemos fingir um mar de rosas, quando ele não existe.

Alexandre Pedro

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Morte e Vida Severina - João Cabral M.Neto

O retirante explica ao leitor quem é e a que vai.

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.


Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

O vídeo anexo é a parte inicial de uma mini-série da Rede Globo intitulada Morte e Vida Severina, baseada no obra de João Cabral de Melo Neto, de mesmo nome. Gravada em 1981, e conta com participações de José Dumont, Elba Ramalho e Tânia Alves. Direção Walter Avancini, e trilha sonora de Chico Buarque.


domingo, 7 de novembro de 2010

" A hora da Estrela "



— E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?
— Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de idéia.
— E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
— Macabéa.
— Maca — o quê?
— Bea, foi ela obrigada a completar.
— Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.
Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse.
— pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...
— Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande divida de honra.
Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro, canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:
— Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

Trecho do livro de Clarice Lispector "A hora da Estrela",1997.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Leda e o Cisne


Um pouco de mitologia:

Conta a lenda que Leda era uma jovem princesa, recém casada com Tíndaro, herdeiro de Esparta. Leda vivia a natureza, gostava de sentir os raios de sol tocando sua pele, a grama verde sob seus pés, sob olhares indiscretos dos deuses.
Certo dia, Zeus a caminho de Tróia, encontra Leda seminua na relva, e de longe, fica admirando sua beleza. Temendo assustá-la e de ser repelido, uma vez que era casada, Zeus transforma-se num lindo e imenso cisne, com belas plumagens para cortejá-la.
Leda fica de longe observando o cisne se aproximar.
Então, o cisne começa mexer suas penas com desenvoltura, numa tentativa excitante em conquistar a moça. Seus movimentos a fascina, a envolve.
Leda estava seduzida.
Então o cisne se aproxima e começa a tocá-la, a acariciá-la com suas plumas e seu longo pescoço.
Excitada, Leda deitou-se novamente na relva e aguardou que o cisne se deitasse sobre ela, e então se amaram.
Meses depois, Leda percebe seu corpo diferente, e de seu ventre saem dois ovos. Leda tivera quatro filhos de Zeus.
Hera, mulher e irmã de Zeus, com ciúmes, começa perseguir Leda e a proíbe de viver no reino. Assim, Zeus compensa Leda, convertendo-a em deusa e reservando-lhe um espaço no céu, na forma de uma estrela na constelação de Cisne.
Os filhos de Leda e Zeus, Castor e Pólux, tornam-se grandes guerreiros e amigos inseparáveis. Porém Castor (que herdou a mortalidade humana) perde a vida em uma batalha e Pólux (que herdou a imortalidade divina) suplica a Zeus que devolva a vida do irmão. Comovido com esta demonstração de amor fraterno, Zeus propõe a Pólux dividir sua imortalidade, alternando com o irmão um dia de vida e um dia de morte.
Assim os irmãos passaram a viver e a morrer alternadamente e Zeus os homenageia com a constelação de Gêmeos, na qual não poderiam ser separados nem com a morte.

Pólux x Castor
Sol x Lua

Por, Alexandre Pedro.

* A imagem acima é reprodução da obra "Leda e o Cisne", de um dos grandes modernistas, Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade Vs Chico Buarque de Hollanda


Numa época em que o mundo se calava, pois, assim era preferível, eles optaram por gritar, silentes.

Carlos Drummond de Andrade, nascido em Minas Gerais - 1902 - é um dos maiores poetas brasileiros.
Chico Buarque de Hollanda, nascido no Rio de Janeiro - 1944 - é um dos maiores nomes da música popular brasileira, com sua extensa obra literária caminhando paralelamente à música.
Do livro "A Rosa do Povo", publicado em 1945, o poema "A Flor e a Náusea", assim como o livro, trata de uma época sufocante num período em que o mundo deglutia a Segunda Guerra Mundial; e no Brasil especificamente, a Ditadura de Getúlio Vargas.
Drummond foi capaz de captar todo sentimento, dor e agonia desta época, e mais importante, conseguiu transformar tudo isso em poesia.
Drummond começou escrevendo muito cedo, foi funcionário público e escreveu até a data de seu falecimento, ocorrida aos 85 anos de idade.

E minha proposta é que você, caro amigo, compare este poema com a obra de Chico Buarque, "Rosa dos Ventos".
No primeiro poema ( de Carlos Drummond ), A Rosa é a representação de um mundo novo, em que o poeta acredita e que está por surgir. No segundo poema ( de Chico Buarque ), a Rosa representa a sociedade que já pode olhar para este novo mundo idealizado. Este Mundo chegou, e é a própria sociedade quem desperta, ainda que tarde, para o despertar de um novo tempo, e a esperança que já havia sido perdida, renasce com força no coração do cidadão oprimido.
Seria injusto colocar dois poemas do Drummond, contra um do Chico, mas a idéia não é de oposição, e sim de complementação; portanto no final desta postagem, colocarei um segundo poema de Carlos Drummond de Andrade, em que os dois poemas já citados ( Chico Vs Drummond ), dialogam perfeitamente. Me refiro ao poema " Áporo ".


A Flor e a Náusea
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma conta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns ache belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária do erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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Rosa dos Ventos
Autor: Chico Buarque


E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

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ÁPORO ( Publicado em A Rosa do Povo )
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

Neste último poema, Drummond discursa sobre um inseto ( o áporo ) que vai cavando sem achar saída, vai perfurando o poema até a sua transformação numa orquídea, que perfura o asfalto. O que é uma tradução de uma sociedade que depois de tanta luta, tanto sofrimento, desabrocha pra um novo mundo de esperanças.
Há ainda uma visão política no trecho:

Eis que o labirinto
( oh razão, mistério )
Presto se desata:
Possível alegoria a Luis Carlos Prestes, que acabara de ser libertado pelo Regime Militar. Pode ser interpretado como o Áporo buscando caminho na pátria sem saída, que se tornou o Brasil durante a Ditadura de Vargas.

Espero que não tenha sido cansativo pra você, leitor. Pois pra mim foi um imenso prazer, fazer esta comparação.
Abraço,
Alexandre Pedro

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Salmo Perdido - Dante Milano


Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.


Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.


O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.


Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Cecília Meireles - Retrato - Motivo



Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Breve sobre o poema Retrato:
No Poema Retrato, Cecília nos faz refletir não sobre a idade que se chega e sim a que se perde. O eu-lírico no poema não percebe a vida passando por entre seus dedos, e quando pára pra se auto-analisar, percebe a vida de algo já consumado. Ainda assim, a personagem não sente pela velhice, repare:

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro"
.
Percebe-se nesta passagem que a personagem embora se dê conta da velhice, esta não a incomoda, ela permanece calma, diante da revelação do espelho/retrato.

"eu não tinha este coração
que nem se mostra".

Indiferença do eu-lírico em relação à idade.

E é tudo tão novo, e mágico que a personagem se pergunta:
"- Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Por Alexandre Pedro


Deixo outro poema, "Motivo - Cecília Meireles ", pra que seja refletido e discutido, que tal?

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Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Autor: Cecília Meireles

Júlio Cortázar - Continuidade dos Parques


Júlio Cortazar, um escritor Argentino, formado em letras em 1935, lecionou na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional de Cuyo", mas renunciou ao cargo, quando Juan Domingo Péron assumiu a Presidência.
O escritor anti-ditadura, muda se para París e passa trabalhar como tradutor da Unsesco.

Júlio, foi convidado a traduzir a obra completa de Edgar Allan Poe, pela Universidade de Porto Rico, trabalho este considerado pela crítica, como a melhor tradução da obra do escritor.

Júlio escrevia de forma a exigir do leitor uma participação ativa na leitura/narrativa.

Após a morte de sua segunda esposa, Carol, em 1982,Júlio entra em profunda depressão e morre aos 70 anos, de leucemia. Seu corpo é enterrado junto ao de Carol, em París.

Júlio Cortázar ( 1914 - 1984 )


Continuidade dos Parques


Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns arrendamentos, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde, e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava, e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da colina.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse, sem dó nem piedade, interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Do caminho oposto, ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um longo corredor, uma escada acarpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
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Neste conto Júlio começa narrando a perspectiva de um personagem (O Leitor) que narra a história de um romance infiel, em que o casal traça um plano para assassinar o marido, e eis que o personagem "amante", percorre o caminho descrito pela mulher "amante/esposa", e se depara com a cena inicial, onde o personagem que lê e narra a história ao leitor, é o próprio marido. E que está sentado na poltrona verde aveludada, lendo o romance à nós-leitores. Ou seja, o personagem se torna real; sai de dentro do livro para assasinar o Leitor-marido.
Por Alexandre Pedro.

Hão de chorar os cinamomos - Alphonsus de Guimarãens


Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

Alphonsus de Guimarãens, poeta simbolista, nascido em Minas Gerais em 1870, seus poemas privilegiam temas como o amor, morte, e a religião.
Aos 18 anos, perde sua noiva, Constança. Seus poemas, ou grande parte deles são dedicados à ela e a esse amor interrompido.

domingo, 3 de outubro de 2010

Cem anos de perdão - Clarice Lispector



Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
Começou assim. Numa dessas brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom.
Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensangüentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Clarice Lispector

Por Alexandre:
Neste maravilhoso texto, Clarice trabalha com o uso de metáforas, e por entre linhas descreve a descoberta da sexualidade entre duas meninas.
O texto nos passa a impressão de tensão a algo proibido, de suspense.
As escondidas, e num papel de cumplicidades, ela resolvem roubar a rosa (metáfora - do orgão sexual feminino).

"Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era."


"Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques."



"Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume."


Enquanto uma vigia o jardim, pra ver se alguém vem vindo, a outra aproveita pra realizar seu desejo:

"Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido"
.

"Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos".

"E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos
literalmente para longe da casa"
.

"A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensangüentados".
Neste trecho a personagem leva a outra personagem a um êxtase de prazer, onde ela libera um líquido ainda que imperceptível, e molha seus dedos.

"Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens".

Neste outro trecho, a personagem se justifica, como quem não sente culpa. Mas pra que justificar-se se não há culpa?
Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão: Mulher x Mulher.
Rosas e pitangas, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Álvares de Azevedo - Meu sonho


Aparelho anti-masturbação masculina, Inglaterra, 1871-1930, Science Museum/Science & Society Picture Library

o poema abaixo " Meu sonho " de Álvares de Azevedo fala por entre linhas sobre masturbação masculina, preste atenção no ritmo que o poema te induz a ler, que é o movimento de "cavalgada".
A espada sanguenta na mão....( o orgão genital masculino )

"Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?."
Este parágrafo é o ato consumado, o orgão desfalecido que cai pro lado, morto.

O autor termina o poema expondo todo sentimento de culpa e pecado, algo que sempre temos depois de ter chegado ao orgasmo.

O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!

Espero que gostem, e adoraria poder discutir mais sobre o poema, aceitam?



Meu Sonho

Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?.
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!.

Álvares de Azevedo

Carlos Drummond de Andrade



Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

Hilda Hilst


Cantares do Sem-Nome e de Partidas.

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

Por Hilda Hilst

Foto: Fashion Design Rodrigo Nogueira
-Grande amigo, obrigado pela autorização de uso desta foto.
http://nogueirarodrigo.blogspot.com/

Fernando Pessoa


Fernando Pessoa

“Há em tudo o que fazemos uma razão singular
É que não é o que queremos
Faz-se porque nós vivemos
E viver é não pensar

Se alguém pensasse na vida, morria de pensamento
Por isso a vida vivida
É essa coisa esquecida
Entre um momento e um momento

Mas nada importa que o seja ou até que deixe de o ser
Mal é que a moral nos reja
Bom é que ninguém nos veja
Entre isso fica viver”

Fernando Pessoa

Safo - À uma mulher amada



Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.

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Safo, a maior poetisa lírica da Antigüidade é, provavelmente, também a primeira mulher a fazer poesia importante na história da cultura ocidental. Nasceu na ilha grega de Lesbos, por volta do ano de 612 a.C.
Sua poesia, devido ao conteúdo erótico, sofreu censura na Idade Média por parte dos monges copistas, e o que restou de sua obra foram escassos fragmentos.
Após cinco anos exilada, volta para Lesbos, onde logo se torna a líder da sociedade local, no plano intelectual. Sedutora, não dotada da beleza na concepção grega da época (embora Sócrates a houvesse denominado "A Bela"), Safo era baixa e magra, olhos e cabelos negros, e de refinada elegância, viúva e vivendo numa sociedade não tinha regras morais como hoje se concebem.
Safo foi chamada de "cortesã" (prostituta). E contavam que havia se suicidado pulando de um precipício na ilha de Leucas, apaixonada pelo marinheiro Faonte - fato que é descrito também em Menandro, Estrabão e Ovídio. Mas há consenso de que isto seja verdadeiramente mítico. Escritos sobreviventes dão Safo como tendo atingindo a velhice, e o certo é que não se sabe como nem quando ela morreu, sendo considerada por alguns a maior de todas as poetisas.
Sua poesia normalmente é direcionado ao feminino.

Lésbicas

O termo lésbica originalmente referia-se
somente às habitantes da ilha de Lesbos, na Grécia.
Na antigüidade, entre os séculos VI e VII a.C.,
morava naquela ilha a poetisa Safo,
admirada por seus poemas sobre amor e beleza,
em sua maioria dirigidos às mulheres.
Por esta razão, o relacionamento sexual entre mulheres
passou a ser conhecido como lesbianismo ou safismo.

Ismael Nery - Poema para Ela



Poema para Ela

Acabaram-se os tempos.
Morreram as árvores e os homens,
Destruíram-se as casas,
Submergiram-se as montanhas.
Depois o mar desapareceu.
O mundo transformou-se numa enorme planície
Onde só existe areia e uma tristeza infinita.
Um anjo sobrevoa os destroços da terra,
Olhando a cólera de um Deus ofendido.
E encontrou nossos dois corpos fortemente enlaçados
Que a raiva do Senhor não quis destruir
Para a eterna lembrança do maior amor.

Ismael Nery
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Ismael Nery foi um pintor brasileiro de influência surrealista, expressionista e cubista; seus temas remetem à figura humana.

Em 1922 casa-se com a poetisa Adalgisa Nery.

Um dos precursores do Modernismo, porém suas obras só tornam públicas em 1965 quando seu nome foi inscrito na 8º Bienal de São Paulo.

Depois de ter sido internado e aparentemente curado da tuberculose, a doença retorna e agora de forma irreversível; a partir daí o artista começa expressar sua dor, suas figuras se mostram mutiladas, viscerais
Faleceu aos 34 anos com tuberculose, mas nos deixou um extenso acervo de artes

Machado de Assís - Círculo Vicioso


Círculo Vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

Machado de Assís.

* A imagem acima, é uma obra do artista plástico, Leonilson ( 1957 - 1993 )

Livro: Felicidade Clandestina - Clarice Lispector



Jujú, conforme você solicitou, estou postando o livro da Clarice Lispector - Felicidade Clandestina, que contém o poema Cem Anos de Perdão.

Beijo, e valeu pela visita,
BOA LEITURA!

aos demais visitantes e amigos:
Àqueles que por ventura gostarem de um bom livro, este é um excelente; confira!!!
http://www.4shared.com/document/BaNSnsFF/Livro_Felicidade_Clandestina_C.html

Augusto dos Anjos - Versos Intimos



Versos Íntimos

Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos, nascido em Parnaíba, 1884.
O poema acima foi incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", organizado por Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001

* A imagem acima,( O casal )é obra do artista que introduziu o surrealismo
no Brasil, Ismael Nery ( 1900 - 1934 ).
Pintor de imaginação surrealista e livre, Ismael Nery registrou em suas figuras fluídas uma intensidade dramática que foi marca inconfundível. Os rostos entrelaçados, com elementos unificados – neste caso, um dos olhos – remetem ao Cubismo, movimento que, entre outras propostas, procurou “deter” o tempo, fragmentando e reorganizando plasticamente a figura. Nery era um apaixonado – em amplo sentido – e daí, talvez, essa junção material e idealizada do casal, como se fosse possível unir de tal forma os amantes a ponto de transformá-los "em um só corpo". De outro lado, as cores escuras, podem traduzir as ameaças e perigos dessa aventura, quase sempre difícil ou impossível de ser consumada.

Ismael Nery - Eu



Ismael Nery

Eu
(1933)

Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas
Eu sou o que não existe entre o que existe.
Eu sou tudo sem ser coisa alguma.
Eu sou o amor entre os esposos.
Eu sou o marido e a mulher.
Eu sou a unidade infinita.
Eu sou um deus com princípio.
Eu sou poeta!
Eu tenho raiva de ter nascido eu.
Mas eu só gosto de mim e de quem gosta de mim.
O mundo sem mim acabaria inútil.
Eu sou o sucessor do poeta Jesus Cristo
Encarregado dos sentidos do universo.
Eu sou o poeta Ismael Nery
Que às vezes não gosta de si.
Eu sou o profeta anônimo.
Eu sou os olhos dos cegos
Eu sou o ouvido dos surdos.
Eu sou a língua dos mudos.
Eu sou o profeta desconhecido, cego, surdo e mudo
Quase como todo mundo.

Tela e poema de ISMAEL NERY

Cartas de um sedutor - Hilda Hilst


HILDA HILST

Trecho de

Cartas de um sedutor

de Hilda Hilst

Estou doente. Taco, meu médico e amigo prescreveu champanhe gelado. Brut. E gelo nas têmporas. E sabes por que estou doente? Porque pressinto surpresas, notícias inquietantes, vindas não sei de onde, talvez de ti. (E por outra coisa que já te digo.) Sinto também que não devemos continuar com as cartas. Te vejo dissimulada, escondendo algo muito sério. Por que não permites que eu vá até sua casa? O que guardas aí? De alguma maneira me transformaste num escriba ou melhor num escrevinhador, e só de saber que tu me pensas escritor agiganta-me a náusea. Que tipos petulantes! Que nojosos! Esgruvinham as virilhas, o pregueado, escarafuncham os sórdidos corações, as alminhas magras, e daí enchem-se de arrotos quando terminam os textos. Verdade que adoro os livros, mas se pudesse arrancar de mim a visão dos estufados que os escreveram vomitaria menos o mundo e a própria vida. Tínhamos um amigo, o Stamatius (!) (eu só o chamava de Tiu, porque, convenhamos, Stamatius não dá) que perdeu tudo, casa e outros bens, porque tinha mania de ser escritor. Dizem que agora vive catando tudo quanto há, é catador de lixo, percebes? Vive num cubículo sórdido com uma tal de Eulália que deve ter nascido no esgoto. Muitos o procuram para ajudá-lo. Não quer nem saber. O Tiu quer escrever, só pensa nisso, pirou, sai correndo de pânico quando vê alguém que o conheceu. Carrega no peito uma medalha de Santa Apolônia, protetora dos dentes. Ah, não tem mais dentes. Bonito o Stamatius. Elegante, esguio. A última coisa que fez antes de sumir por aí foi torcer as bolotas de um editor, fazê-lo ajoelhar-se até o cara gritar: edito sim! edito o seu livro! com capa dura e papel bíblia! Só então largou as bolotas e balbuciou feroz: vai editar sim, mas a biografia da tua mãe, aquela findinga, aquela léia, aquela moruxaba, aquela rabaceira escrachada que fodeu com o jumento do teu pai - e quebrou-lhe os dentes com a muqueta mais acertada que já vi. Quebrou a mão também. Bem, mas isso não vem ao caso. Ao caso pior: o Kraus morreu. A Cuzinho num acesso de indignação não só a cause do apelido mas desesperada com todas as indignidades vindas do Tom, invadiu a casa do Kraus com o linguão de fora, e alguns dizem que o perseguiu pela casa inteira uma boa meia hora, escobilhando a comprida. Consta que o Kraus tapava o aro morrendo de rir literalmente. E acreditas? Morreu. O Tom quer provar homicídio, quer o testemunho de todos os amigos e dos terapeutas também, mas quem é que vai acreditar que um cara morreu de rir só com a ameaça de lhe lamberem o botão? A turma do pólo está estudando um plano, alguma nefanda crueldade para Amanda. Dizem que vão lhe enfiar algumas bolas de pólo polpas e pombinha adentro. Se assim for resolvido manda-me os tocos dos tais ficheiros. Haja bola! Tom foi medicado na hora do enterro de Kraus porque não suportou ver o amigo morto e ainda sorrindo. Estou doente por tudo isso e porque não posso pensar na morte, nem na minha nem na do Kraus nem da barata, tenho medo da pestilenta senhora e imagino-me puxando-lhe o grelo, esticando-lhe os pentelhos até ouvir sons tensos arrepiantes. Hoje gritei demente: vem, Madama, vem, e irado, numa arrancada, soltei da pestilenta grelo e pentelhos e eles esbateram-se frenéticos nos seus baixos meios. Se pudesse seduzir a morte, lamber-lhe as axilas, os pêlos pretos, babar no seu umbigo, enturpir-lhe as narinas de hálitos melosos, e dizer-lhe: sou eu, gança, sou eu, mariposa, sou Karl, esse que há de te chupar eternamente a borboleta se tu lhe permitires longa vida na olorosa quirica do planeta.

Ciao, irmanita.

(Cartas de um sedutor - SP: Paulicéia, 1991.)

Mário de Sá Carneiro - A Confissão de Lúcio



Mário de Sá Carneiro

Dispersão, Mário de Sá Carneiro.

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro —
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas Pra se dar
Ninguém mas quis apertar
Tristes mãos longas e lindas

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em urna bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço,...
..................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba.

Leitura recomendada: "A Confissão de Lúcio".

Breve Resenha sobre a obra " confissão de Lúcio "
Narrado em primeira pessoa, a história de Lúcio é a história de um crime e de uma confissão. Depois de dez anos de prisão, onde cumprira pena por ter assassinado o poeta Ricardo Loureiro, Lúcio é solto e começa a contar sua história para, segundo ele, demonstrar sua inocência. À medida que relata os fatos que antecederam o crime, as lembranças se embaralham, perde a nitidez e a ambiguidade toma conta da narrativa.
O que o leitor acompanha é a reconstrução fragmentada do passado de Lúcio, amigo íntimo de Ricardo e sua esposa, Marta, uma mulher misteriosa, que às vezes, não parece ter existência própria.A convivência entre eles faz nascer em Lúcio, um grande desejo por Marta.Tornam se amantes.
Passado algum tempo, ele descobre que não é seu único amante. Cego pelo ciúmes, começa sentir ódio de Ricardo, por desconfiar que Ricardo sabe de tudo, inclusive de sua traição com a esposa.
Rompe com o amigo e quando se reencontram, Ricardo lhe confirma a desconfiança e explica que, só possuindo fisicamente o objeto de sua amizade, podia senti-la verdadeiramente. Mas como possuir seus amigos? Por intermédio de sua mulher.
Alucinado, Ricardo quer provar à Lúcio, que o valoriza acima de tudo e de todos. Arrasta-o até sua casa, entra nos aposentos de Marta. Marta está apoiada na janela lendo um romance, e na mesma posição fica, como se nada estivesse acontecendo. Ricardo saca um revolver e atira em Marta, mas aos pés de Lúcio o corpo que cai é de Ricardo, e não o de Marta. Marta desaparece como que por encanto.
Então, ocorre o fantástico.
Quem é o assassino? Quem é a vítima? Marta era real, ou era apenas uma projeção da atração sexual que Ricardo e Lúcio sentiam um pelo outro e da atração que Ricardo sentia pelos outros amigos, de quem Lúcio tinha ciúmes doentios?
No julgamento ninguém se esforçou à acreditar em Lúcio, nem ele mesmo fez com que se acreditassem. Era verdadeira, mas inverossímil. E os dez anos de cadeia, serviram como refúgio, uma espécie de repouso pra sua alma atormentada.
O que lemos, portanto, e o relato de um mistério. Só e distante dos homens, agora Lúcio está à espera do fim.
Seria Lúcio o próprio Mário, e sendo assim, seria uma biografia escrita por Mário, descrevendo como seria seu futuro, se houvesse um?

"...acho me tranquilo - sem desejos, sem esperanças.
Não me preocupa o futuro.
O meu passado ao revê-lo, surge como o passado de outro.
Permaneci, mas não me sou.
E, até à morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face... A morte real - apenas um sono mais denso...".
* Trecho final do livro " A Confissão de Lúcio, 1913; por Mário de Sá Carneiro "

Mário de Sá Carneiro ( Portugal, 1890-1916 ).