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-Entre,-Tire os sapatos,-Sente-se e fique à vontade.-vou pôr uma música.-Aceita um café?- Gosta de livros?- escolha um e vá folheando,-volto já, com o café.
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
Alexandre Pedro
sábado, 14 de julho de 2012
Carne Viva
Vou transitando, como um quase vivo, por sobre uma corda que vai ficando pra trás, e, vou dando voltas na vida como se ela fosse um ausente meu, sem pensar que a vida é a própria corda, e o trás (passado) é meu próprio pescoço e vou sufocando o inapropriado momento do ego meu. Fixo-me a entender para onde seguem os degraus das escadas rolantes, que correm como rios, mas que me negam ver suas curvas. São passos rasos, degraus que me frustram por tanta determinação. Quisera, eu, ter o dom das escadas rolantes e seguir com tamanha determinação pra lugar nenhum. Viver é habitar um corpo oco, vazio, e que, anseia a solidão dos frigoríficos febris de carnes frias.
Alexandre Pedro
Arte: Franc Fernandes
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Dois tragos
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro Pedro
sábado, 30 de junho de 2012
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Com o discernimento novamente virgem, todo o meu tédio pude ver de um corpo estranho. Não era meu aquele corpo mergulhado numa tigela de tédio borbulhante. A calmaria da paisagem opaca do quadro pendurado na parede de um amarelo envelhecido era o cenário de mim, personagem do livro que estava em minhas mãos, aberto, próximo de minhas narinas. Aproximei ainda mais na tentativa de separar o cheiro do livro dos cheiros das palavras; e mais ainda, a separar o cheiro de cada palavra para ver se diferiam. Percebi então, que, as páginas amareladas pelo tempo ainda guardavam o cheiro contido de cada palavra. As palavras eram perfumadas de acordo com a sua adjetivação; palavras a ser conjugadas tinham o mesmo cheiro indefinido; enquanto, as adjetivais eram sempre as mais intensas; umas cheiravam imensamente bem, outras, quase insuportáveis.
Cada palavra era um artigo em minhas mãos, e tive medo. Meus olhos, de tão próximos, começaram a me sugerir uma leve sensação de desconforto; como se as palavras a mim tomassem, ou me embebedassem. A vista toda embaraçada.
Aquela mistura de cheiros, de repente, percebendo o parecer da minha hesitação, se revolta contra mim e me expele em espirros irritantes, e me vejo segurando o livro velho, absurdamente molhado por um personagem que saíra de mim.
No marcador de páginas constava escrito em sinuosa caligrafia os desejos de mamãe: um dia você vai ser um Dr. de Livros, meu filho.
Alexandre Pedro - Doutor de Livros
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Temo eu, nesse instante percebido com clareza, a beleza de todas as coisas me perceberem junto delas e se revoltarem numa tempestade. A única saída é chover de mansinho sob o guarda chuva, como quem pede perdão com as duas mãos, numa reza de menino.
Alexandre Pedro
terça-feira, 19 de junho de 2012
Eu vi, para além do meu corpo, meu corpo esfaquear o corpo de meu pai. Era noite escura com reflexos da lua no aço da faca. Nas mãos, havia a cegueira das lâminas; nos olhos, a claridade dos discernimentos. Afiei a faca na fresta da porta a ver se o outro lado me via. E nada viram. Só me a mim; a visão das tensões de meu pai a me olhar com olhos vivos de frustrações de sua vida fracassada; como me a pedir o sossego. De tão cruel seria a piedade que, antes, acordei. Não fui capaz de desvirginar o fio da faca novamente. Como disse Maria Bethânia, 'foi tudo um sonho. Graças a Deus, um sonho e nada mais; eu vou parar de ler jornais'."
Alexandre Pedro
domingo, 17 de junho de 2012
Aspirinas
A carne pede corpo.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
O relógio passa viciosamente do outro lado da rua.
Ouço seus passos a tiquetaquear lentamente pelas paredes
daqui.
Vou perdendo a lucidez; macerando-me os pensamentos, mortificando-me no
vácuo do vazio do silêncio.
Vou ganhando horas e perdendo o tempo. Envelhecendo aos
cacos, esfarpelando-me o corpo.
A cabeça a confrontar meu corpo que só me faz
fazer um desespero. Assim, leve, tenro e diminuto.
De minuto em minutos a vida vai gotejando.
Pra onde vai a vida que esvai?
Não sei; definitivamente, não sei!
Meus poros vão se fechando, afunilando-me em estreita
fidelidade ao corpo.
Meu corpo já não me é fiel; briga comigo todos os dias, e
me atrofia num cansaço do tédio de não estar cansado.
Minha expressão me é tão natural que tenho a cara de quem
sente nojo.
É imensamente difícil ver aproximar os quarenta se já não
somos jovens, nem idosos. Há uma fenda no tempo; um dormir profundo em sonhos
perturbadores que nos deixam inseguros; deslocados da realidade dos anos
contados. É um perder-se constante entre tantos, de idades múltiplas, que nos
não deixam dormir.
Corro, contra tudo em mim, a buscar resquícios de razão
no superlativo dos meus resíduos e desconserto.
Meu escape é uma brochura de
desassossego. Pessoa o fez pra mim.
Alexandre Pedro
sábado, 14 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012
A pedra me filosofava
domingo, 1 de abril de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012
Despertar

segunda-feira, 19 de março de 2012
sábado, 17 de março de 2012

pela pele dela.
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
terça-feira, 13 de março de 2012
Status Quo ou, Meias Verdades

O status de uma pessoa, que não o meu, me assusta e, pode-se pensar de mim, uma timidez, mas em verdade, a timidez é apenas uma cápsula à qual, inconscientemente, me visto para ser visto pelo outro. Não pense de mim, um ser retraído, moribundo; ao contrário, pense na fobia que sua presença me causa. Não está em mim algum defeito; o seu enigmático mundo é o que me frustra; e você, inconscientemente, não consegue perceber seu trono. Me posto à sua frente, mas você me olha de cima. Não cabe a mim, ou a você, fazer-te mudar. Nem tenho, com este, a intenção; quero, antes, que se aperceba. Quando a sociedade se houver percebida teremos um mundo um tanto menos desigual. O que você tem de bens materiais nem você os percebe pois, se os percebesse conversaria com eles. Conviva com tua casa, tua família, teus livros, advém deles a sabedoria e simplicidade de que precisa. Não pense haver sensibilidade naquilo que não lhe é sensível pois, se o fosse, seu corpo se romperia às esquinas. Habite meu mundo e saberá do que falo. Conviva comigo, e sobreviva a mim. Então, lhe perguntarei qual é o seu status. Não tenho, com isso, a pretensiosa ideia que minhas palavras o farão pensar, quero, antes, que às sinta; cada palavra. Assim como me visto em uma cápsula pra me esconder da sua face imponente, me satisfaria se me desnudasse.
Alexandre Pedro
domingo, 4 de março de 2012
sujeito e predicado

quinta-feira, 1 de março de 2012
há sempre em mim

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Amantes
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Prólogo para um monólogo

domingo, 22 de janeiro de 2012
Bondage
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Uns tragos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Um lápso e algumas palavras dessacralizadas

Um lápso e algumas palavras
O relógio havia parado.
Percebi o som do seu último tiquetaquear, ainda em falso, suspenso no ar.
Então, o silêncio tornou-se ensurdecedor.
Das janelas, via-se a cidade invertida. Era como se crustáceos olhassem em espelhos
de areia.
Eis que sinto, na garganta, pegadas de algum inseto repugnante a mordiscar, com
sabor, minha jugular.
Hemorrágicamente começo a nadar no tapete do quarto, e percebo lesmas embaixo da cama. Aquele amontoado de línguas a se mover numa suruba lânguida e libidinosa. Sinto-me
atraído como se fossem sereias lascivas.
Tento fugir, procuro por aquilo de que sempre fugi, a Bíblia.
Esta se desfaz em minhas mãos como lembranças de uma primavera distante.
Me arrasto ao telefone pra pedir socorro, e nas minhas mãos tenho cartilagens de
orelhas que emitem sons de ondas quebrando na encosta.
Corro até a janela, e de dentro vejo valagumes orientando um sol apagado, perdido na
órbita.
Meus olhos lacrimejam um sorriso sem dentes.
Um vento traz uma placa letrada de motel e pendura-a no cume da igreja.
Um padre cacareja palavras demoníacas.
Um certo alívio me conforta, e me derruba ao chão, do trigésimo terceiro andar.
Meu crânio estilhaça no chão frio de mármore e meu cérebro emite suas últimas
cenas, como num espetáculo final, com suruba de línguas-lesmas numa catedral derretida pelo deus sol.
A brasa do cigarro queima-me o dedo, e em susto, derrubo a xícara de café que mancha
minhas palavras sagradas.
Das páginas de meus rabiscos, um padre letrado persigna os fieis sobre um pênis avolumado.
Então, o relógio volta a tiquetaquear.
Alexandre Pedro
sábado, 24 de dezembro de 2011
Estória de uma prima: Vera

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bebi de tuas palavras,
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Homenagem ao poeta MANOEL DE BARROS, que completa hoje, 95 anos.

Distancias somavam a gente para menos.
Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele.
Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores.
Meu avô abastecia a solidão.
A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:
O dia está frondoso em borboletas.
No amanhecer o sol pôs glorias no meu olho.
O cinzento da tarde me empobrece. e o rio encosta as margens na minha voz.
Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar.
Eu queria que as garças me sonhassem.
Eu queria que as palavras me gorjeassem.
Então, comecei a fazer desenhos verbais de imagens.
Me dei bem.
Perdoem-me os leitores esta entrada mas vou copiar de mim alguns desenhos verbais que fiz para este livro.
Acho-os como os impossíveis verossímeis de nosso mestre Aristóteles.
Dou quatro exemplos:
1) É nos loucos que grassam luarais;
2)Eu queria crescer passarinho;
3) Sapo é um pedaço de chão que pula;
4) Poesia é a infância da língua.
Sei que meus desenhos verbais nada significam.
Nada.
Mas se o nada desaparecer a poesia acaba.
Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.
Manoel de Barros
Texto extraído da abertura do livro: Poesia Completa - Manoel de Barros, 2010
domingo, 4 de dezembro de 2011

Vão entre becos

Agradeço à visita e ao carinho. Alexandre Pedro
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Se ( Reflexo Condicional )
E, se as palavras regressassem?
E, se eu ousasse dizê-las?
E se um anjo caísse?
E, se eu levantasse?
E, se Augusto adoecesse?
E, se Drummond despertasse?
E, se...."
Alexandre Pedro
10-11-2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Caminho Suicida
Alexandre Pedro
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O mundo precisa ler isso: Do livro "A Náusea", publicado em 1938, um ano antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial

"(...) no entanto a natureza vaga penetrou em sua cidade, infiltrou-se por todo lado, em suas casas, em seus escritórios, neles próprios. Não se mexe, mantém-se quieta, e eles estão bem dentro dela, respiram-na e não a vêem, imaginam que ela está lá fora, a vinte léguas da cidade. Mas eu vejo essa natureza, vejo –a...Sei que sua submissão é preguiça, que La não tem leis: o que acreditam ser sua constância...Ela tem apenas hábitos e pode mudá-los amanhã.
Se acontecesse alguma coisa? Se de repente ela começasse a palpitar? Então eles perceberiam que ela está presente ali e teriam a impressão de que seus corações iam se quebrar. Então de que lhes serviriam seus diques e suas muralhas e suas centrais elétricas e seus altos fornos e seus martelos-pilões? Isso pode acontecer a qualquer momento, talvez imediatamente: os presságios aí estão. Por exemplo, um pai de família, passeando, verá vir em sua direção, através da rua, um trapo vermelho como que empurrado pelo vento. E quando o trapo estiver bem perto dele, verá que é um pedaço de carne podre maculada de poeira, que se arrasta, saltitando, um pedaço de carne torturada que rola nos riachos, projetando, por espasmo, jatos de sangue. Ou então uma mãe olhará para a face de seu filho e lhe perguntará: “Que que você tem aí? É uma espinha?”, e verá a carne empolar um pouco, fender-se, entreabrir-se, e, no fundo da fenda, um terceiro olho, um olho risonho surgirá. Ou então sentirão suaves roçaduras por todo o corpo, como as carícias que nos rios os juncos fazem nos nadadores. E perceberão que suas roupas se transformaram em coisas vivas. Outro sentirá que há algo arranhando sua boca. E se aproximará de um espelho, abrirá a boca: e sua língua se terá tornado uma enorme centopéia viva, que baterá as pernas e lhe arranhará o céu da boca. Tentará cuspir, mas a centopéia será uma parte dele mesmo, e ele terá que arrancá-la com as mãos. E quantidades de coisas surgirão, para as quais será preciso encontrar novos nomes, o olho de pedra, o grande braço tricorne, o artelho-muleta, a aranha maxilar. E quem estiver dormindo em sua boa cama, em seu tranqüilo quarto quente, acordará inteiramente nu num chão azulado, numa floresta de pênis estrepitoso, vermelhos e brancos, erguidos para o céu como as chaminés de Joutexbouoville, com grandes testículos meios saídos da terra, peludos e bulbosos como cebolas. E pássaros esvoaçarão em torno desses pênis e os picarão com seus bicos e os farão sangrar. Escorrerá esperma desses ferimentos, lentamente, suavemente, esperma misturado com sangue, vítreo e morno, com pequenas bolhas. Ou então nada de tudo isso acontecerá, não ocorrerá nenhuma mudança apreciável, mas as pessoas, uma manhã, ao abrirem suas persianas, serão surpreendidas por uma espécie de sentido terrível, pesadamente pousado nas coisas e que parecerá estar à espera. Apenas isso: mas por pouco tempo que isso dure, haverá centenas de suicídios. Homens inteiramente sós, sós com suas horríveis monstruosidades, correrão pelas ruas, passarão pesadamente diante de mim, os olhos fixos, fugindo de seus males e trazendo-os consigo, a boca aberta, com sua língua-inseto batendo as asas. Então estourarei de rir, mesmo se meu corpo estiver coberto de nojentas crostas suspeitas, que se abrem flores de carne, violetas, em ranúnculos. Encostar-me-ei numa parede e gritar-lhes-ei ao passarem: “Que fizeram de suas ciência? Que fizeram de seu humanismo?” Não sentirei medo. Não será tudo isso a existência, variações sobre a existência? Todos esses olhos que devorarão lentamente um rosto certamente serão demais, mas não mais do que os dois primeiros. É da existência que sinto medo.”
Imagem: O Grito - Edvard Munch, 1893
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Luto pela Palavra
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Feliz Dia das crianças, molecada!

Lembranças
Este foi meu segundo poema e, dedico àqueles a quem a vida lhes deu um tropeço.
Andando pelas ruas à noite;
luzes acesas projetam sombras
nas calçadas de paralelepípedos.
Lembranças da infância:
Pedrinho passa a bola,
Chuta!!! Chuta!!!
Vem me driblar...
Olha o carro!!!
Crashhhhhhh
- Pedrinho tem a sombra menor
e mais cheia que a minha.
Alexandre Pedro
Setembro, 2010
domingo, 9 de outubro de 2011

Da Imagem: Alexander Kiselev, " A Morte de Jacinto".
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Fidelidade
No limiar das consequências vinham as dores num assombro quando a noite vinha.
Do portão de sua casa, chamava , gritava, chorava. Sabia que estava em casa. Luzes de velas sobre as mesas. Estaria acompanhada? Recebiam-no cheiros de flores.
Alexandre Pedro
28/09/2011
domingo, 25 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
Spa da Mente
Carregava ele, sua cabeça nos braços. Seu corpo encurvava, todo ele, em sua jornada. Os dias se tornavam pesados em sua total intensidade. Buscava abraçar os filhos ao chegar do trabalho, mas suas forças eram tão majestosamente exausta que caía ele na poltrona a observar a tv, sem força para ligá-la. A cabeça repousada, ao lado.
Com muito, muito esforço pegava o controle e com um leve tocar de dedos clicava fazendo arder em chamas aquele enorme tubo negro. Dava para se ouvir um chiado. Como se um mundo abrisse à sua frente. Seus dedos tensos mergulhavam nos botões duros do controle. Um fragmento do tempo falhara e, nesse átmo entrava ela, em cena.
O brilho da tela fazia com que sua companheira, a cabeça, despertasse e ficasse ali, de novo, vividamente a observar, com ar desprezível, seu companheiro. Ela lhe condenava os dias; um fardo árduo nos braços.
Agora ela o encarava; olhar desafiante; fitava-o como a demonstrar toda insignificância do seu ser mutilado. Suas forças esvaiam-se por toda.
Não se auto conhecia a priori pra duelar com sua companheira. Olhava-a, bastava e já se cansava.
Então, foi quando na parede da sala, em um quadro imenso que a enfeitava, num recorte da tela onde se podia ver uma cidade, onde se podia ver, também, uma casa, um jardim, e no jardim podia ver-se crianças, e cada uma delas, segurava em suas pequeninas mãos um pirulito, ele percebeu-se na vida. A vida estava naquele ser redondinho, amarelinho que, todo salivado, concentrava toda atenção daquela não mais criança. O mundo era sua vida, sua vida era sua casa. Sua casa era seu limite. Seu limite estava ali, na tv, no controle. Ele era o limite de si mesmo. Saboreava com dissabor a vida que lhe brilhava na tela. E a confusão estava feita em sua pesada cabeça. Foi quando, assustado, saltou engolindo a saliva. Foi a primeira vez que fizera duas coisas ao mesmo tempo e ainda, sem pensar. A personagem da tv havia deixado de contracenar e agora trocava palavras com ele. Palavras de saber que ele correspondia e sentia-se orgulhoso, astuto, obstinado, até viril se achava, por haver no mundo, alguém que lhe prostrasse a sua frente e sorrisse junto dele; para ele e pela primeira vez, com ele. E ela, a cabeça, começara a rir, rir, simplesmente, rir daquela cena ignorante, e sua insignificância se desfez. Seus braços já não podiam sentir o peso de sua cabeça. A consciência voltara para aquela caixinha cinzentinha com gavetinhas; ele deixara aquela sala; agora seu mundo estava pintado na tela: da tv. Ele voltara a ser criança. A moça na tela da tv era uma fada. A fada vento. E lhe entregara uma espada. A espada mente.
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