Seja bem vindo!!!
-Entre,
-Tire os sapatos,
-Sente-se e fique à vontade.
-vou pôr uma música.
-Aceita um café?
- Gosta de livros?
- escolha um e vá folheando,
-volto já, com o café.
Alexandre Pedro
e-mail: alexandre.eells@gmail.com

Pesquisar no Cárcere do Ser

segunda-feira, 23 de julho de 2012

É a hora de sangrar o desafio da vida; sonhar. Sonhar viver um sono. Dormir e não se ver o acordar. Pensar noites relembrando os dias. Passar os dias desejando o pousar da noite. Tornar criança na busca súplica de contar carneirinhos e não dormir jamais. Acender cigarros e atirar a noite pela janela. É hora de sangrar a morte que teima em sonambular-me os canteiros vagos. Amontoar-se aos desesperos na plácida calma do meu sossego vespertino. Acordar de um sono claro, e trazer a noite nos braços pra dentro do quarto, onde dorme meu leito. Distante de tudo que é morno e calmo, real e concreto. É hora de sangrar os dedos e escrever, ate à morte, relapsos de uma vida fútil regrada de alucinadas noites mortas, e desregrada de mim.
Alexandre Pedro

sábado, 14 de julho de 2012

Carne Viva

A vida é de um branco sujo, manchado com sangue da primeira visão que temos de quando começamos a morrer; o nascimento.
Vou transitando, como um quase vivo, por sobre uma corda que vai ficando pra trás, e, vou dando voltas na vida como se ela fosse um ausente meu, sem pensar que a vida é a própria corda, e o trás (passado) é meu próprio pescoço e vou sufocando o inapropriado momento do ego meu. Fixo-me a entender para onde seguem os degraus das escadas rolantes, que correm como rios, mas que me negam ver suas curvas. São passos rasos, degraus que me frustram por tanta determinação. Quisera, eu, ter o dom das escadas rolantes e seguir com tamanha determinação pra lugar nenhum. Viver é habitar um corpo oco, vazio, e que, anseia a solidão dos frigoríficos febris de carnes frias.
Alexandre Pedro


Arte: Franc Fernandes

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dois tragos

Senti um forte cheiro de gás por onde passava; um posto de gasolina...e*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro Pedro

sábado, 30 de junho de 2012


Um raio riscou o céu e apagou em mim; uma árvore.
Ardendo em fogo, morri. Tive meus galhos secados, minhas raízes foram fraquejando, e morri de verdade. 
Mas eu ainda estava viva. Via de dentro de mim a vida vazando do lado de fora. Ervas daninhas tomaram posse do meu corpo enegrecido, e eu a pensar no ciclo da vida. Na vida que me havia sugado. 
Só o tempo teve piedade de mim, e um dia começou me a brotar escamas que reluziam à luz do sol. E a vida ressurgiu; sem deus, sem pecado, sem nada; só vida. A vida no inanimado das coisas.

Alexandre Pedro


quinta-feira, 21 de junho de 2012



Abri um livro qualquer em qualquer página numa situação qualquer a me apegar a qualquer distração e fui arrebatado por aquele cheiro de infância; de páginas novas, com letras ainda pregadas umas às outras a fazer barulhinhos ao separar das páginas. Uma nostalgia se apoderou dos meus instintos e me fez criança outra vez.
Com o discernimento novamente virgem, todo o meu tédio pude ver de um corpo estranho. Não era meu aquele corpo mergulhado numa tigela de tédio borbulhante. A calmaria da paisagem opaca do quadro pendurado na parede de um amarelo envelhecido era o cenário de mim, personagem do livro que estava em minhas mãos, aberto, próximo de minhas narinas. Aproximei ainda mais na tentativa de separar o cheiro do livro dos cheiros das palavras; e mais ainda, a separar o cheiro de cada palavra para ver se diferiam. Percebi então, que, as páginas amareladas pelo tempo ainda guardavam o cheiro contido de cada palavra. As palavras eram perfumadas de acordo com a sua adjetivação; palavras a ser conjugadas tinham o mesmo cheiro indefinido; enquanto, as adjetivais eram sempre as mais intensas; umas cheiravam imensamente bem, outras, quase insuportáveis.
Cada palavra era um artigo em minhas mãos, e tive medo. Meus olhos, de tão próximos, começaram a me sugerir uma leve sensação de desconforto; como se as palavras a mim tomassem, ou me embebedassem. A vista toda embaraçada.
Aquela mistura de cheiros, de repente, percebendo o parecer da minha hesitação, se revolta contra mim e me expele em espirros irritantes, e me vejo segurando o livro velho, absurdamente molhado por um personagem que saíra de mim.
No marcador de páginas constava escrito em sinuosa caligrafia os desejos de mamãe: um dia você vai ser um Dr. de Livros, meu filho.


Alexandre Pedro - Doutor de Livros

quarta-feira, 20 de junho de 2012


Os dias de chuva são sempre inspiradores, mas nada me dizem no dia de hoje. A chuva escorre pela minha face e, quase despercebida, esfria-me o contentamento. Vasculho em todos os cantos a procurar poesia - sem tempo de pensar que a poesia está no chover. Quando a percebo, chovo junto num lamento que escorre na enxurrada e me leva o dia todo. Percebo a irreverência nos galhos das árvores que se debruçam nas calçadas por que passo, e, ignorante e desatento, arranco suas folhas...


Temo eu, nesse instante percebido com clareza, a beleza de todas as coisas me perceberem junto delas e se revoltarem numa tempestade. A única saída é chover de mansinho sob o guarda chuva, como quem pede perdão com as duas mãos, numa reza de menino.


Alexandre Pedro

terça-feira, 19 de junho de 2012


‎
Eu vi, para além do meu corpo, meu corpo esfaquear o corpo de meu pai. Era noite escura com reflexos da lua no aço da faca. Nas mãos, havia a cegueira das lâminas; nos olhos, a claridade dos discernimentos. Afiei a faca na fresta da porta a ver se o outro lado me via. E nada viram. Só me a mim; a visão das tensões de meu pai a me olhar com olhos vivos de frustrações de sua vida fracassada; como me a pedir o sossego. De tão cruel seria a piedade que, antes, acordei. Não fui capaz de desvirginar o fio da faca novamente. Como disse Maria Bethânia, 'foi tudo um sonho. Graças a Deus, um sonho e nada mais; eu vou parar de ler jornais'."
Alexandre Pedro

domingo, 17 de junho de 2012





Aspirinas 
A carne pede corpo. 

O corpo saliva, pede carne...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro



"Paira sobre mim uma calmaria;
mais nada!"

Alexandre Pedro 


*Van Gogh Vincent- Three Pair of Shoe

Da série "Inconstâncias": 

"E o silêncio não estava na ausência de barulho. Estava no excesso." 

Alexandre Pedro

quarta-feira, 13 de junho de 2012



O relógio passa viciosamente do outro lado da rua.
Ouço seus passos a tiquetaquear lentamente pelas paredes daqui. 
Vou perdendo a lucidez; macerando-me os pensamentos, mortificando-me no vácuo do vazio do silêncio.
Vou ganhando horas e perdendo o tempo. Envelhecendo aos cacos, esfarpelando-me o corpo. 
A cabeça a confrontar meu corpo que só me faz fazer um desespero. Assim, leve, tenro e diminuto.
De minuto em minutos a vida vai gotejando.
Pra onde vai a vida que esvai?
Não sei; definitivamente, não sei!
Meus poros vão se fechando, afunilando-me em estreita fidelidade ao corpo. 
Meu corpo já não me é fiel; briga comigo todos os dias, e me atrofia num cansaço do tédio de não estar cansado.
Minha expressão me é tão natural que tenho a cara de quem sente nojo.
É imensamente difícil ver aproximar os quarenta se já não somos jovens, nem idosos. Há uma fenda no tempo; um dormir profundo em sonhos perturbadores que nos deixam inseguros; deslocados da realidade dos anos contados. É um perder-se constante entre tantos, de idades múltiplas, que nos não deixam dormir.
Corro, contra tudo em mim, a buscar resquícios de razão no superlativo dos meus resíduos e desconserto. 
Meu escape é uma brochura de desassossego. Pessoa o fez pra mim.
Alexandre Pedro


sábado, 14 de abril de 2012




‎"Às vezes , o corpo fica regurgitando ecos de gritos passados, por vezes de dores, outras, alegrias; e nesse abismo do corpo é quase insuportável não sentir o dilacerar dos poros e os tímpanos fraquejarem. A cinza dos dias na luz pálida do sol é anúncio de chuva e o lavrar da alma. A impossível desfragmentação de si em minusculas partículas do estilhaçar dos músculos. Os dedos que me perseguem e me acusam, ao mesmo tempo me abusam num gozo paradisíaco me levando à boca um sinal de psiu. Quem sabe é o silêncio quem me chama. Então, me calo no silêncio árduo dos meus pensamentos e, vejo chegar a hora de copiar bulas de remédios pra não perder o cordão umbilical que me liga ao raciocínio humano que me torna humano, quem sabe! As palavras são venenos encrespados em resíduos de papeis malogrado de catástrofes variáveis. São latas de cervejas e automóveis que me enferrujam a alma, e o meu respirar é um agonizar constante. A cabeça carregada sobre o corpo largado na calçada dos dias passados. A cabeça caída morta na poça de sangue, e a boca cheia de palavras carcomidas. O pensamento é uma cinza de fumaça que sobe do líquido vermelho casto, e se alastra no rastro que arrasta o que não tem futuro. E essa dor contínua, que de olhos já fechados, ainda, posso vê-la?"

Alexandre Pedro

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A pedra me filosofava

Sonhei; estava à beira de uma estrada, dessas sem destinos, com vultos passando de um lado para o outro.
Sentado sobre a pedra, eu assistia o mundo faminto. Era um mundo sem fundo em sua oquidão, meu Deus! Passantes me olhavam e não me viam. Pensava eu, se estava eu acordado ou, se os passantes é que dormiam. Senti, nos olhos de uma criança, o olhar dos dias idos. Dentro daqueles olhinhos vi toda a minha vida se passando; meu despertar e o meu dia interrompido.
Sentado sobre a tal pedra eu me sentia carregando-a. Não era uma pedra pra se entregar ao repouso, era antes, o peso das minhas costas que eu havia despercebido e sentado sobre o meu próprio peso. Então, uma senhora me percebeu e com seus dedos amarrotados me tocou oferecendo-me um cigarro. Perguntou-me o nome, e o que fazia eu por lá.
Respondi, acenando com a cabeça; e apenas sorri. Por gratidão ofereci-lhe a pedra. Era tudo o que eu tinha. Mas antes que ela respondesse, hesitei. Dei meu último trago no cigarro. Como seria difícil me desprender daquela pedra! A pedra era eu.
No entanto, como se a velha soubesse do meu apego pela pedra, quis tomá-la.
A pedra me filosofava.
Eu trazia o nada em minhas mãos; nem mãos eu trazia. Era como se eu sonhasse que acordava dormindo num sono profundo de nuvens arredias. A vida já não era um menino; a vida era uma velha vingança e, me dizia.
....
....
...que eu haveria de comer a própria boca, sepulcrar meu próprio grito, e escrever, com sangue , a própria história . E a cada letra grafada, arrancaria uma unha para escrever a próxima. E me arrancaria, também, os olhos, ao ler minha história no rastro rasgado pela vida.
Alexandre Pedro

domingo, 1 de abril de 2012


‎É Outono;
A folha, sonhadora, se desprende do topo de seu altar,
lançando um salto pra vida em busca de alcançar o chão,
em sua queda, acena para as outras folhas
que bailam,
e lhe dizem adeus;

O solo aguarda pulsante por acolher seu corpo,
tão leve e sensível.
Com suas cores irá enfeitar a terra umedecida
e sob nossos pés seu corpo se transformará em pó.

E, um sopro de vento dispersará seus fragmentos que se juntarão ao nossos, já dispostos no mesmo solo, aguardando uma nova Estação.

Alexandre Pedro

quarta-feira, 21 de março de 2012

Despertar


"A luz do sol invade o escuro das paredes, quebra os vidros das janelas, atravessa o silêncio das cortinas, e toca, com seus cílios, as pálpebras da minha existência cansada.
O som insuportável da sua presença me dilacera a alma que, de um sonho distante busca meu corpo, num galope rasante, me alcançar disperso.
E, antes que eu possa abrir meus olhos, ouço meu coração galopando sobre o meu peito. Parece ele, desesperado, a confundir seus passos com a alma que retorna de um sonho tranquilo. Suspiro um último instante de um não ser eu; e se o for, já não reconheço; e roubo seu sopro de vida pra confortar o meu."

Alexandre Pedro

segunda-feira, 19 de março de 2012


A pedra ao meio do lago bate fundo;
Toca ao chão e a água treme;
Palpitações do corpo água
Navegam em ondas até o mato verde.
E eu, de fora desse perfeito oceanar,
divago, longe, as palpitações de um corpo em pedra.
Alexandre Pedro

sábado, 17 de março de 2012


Em pelos

Pelos pelos dele,
pela pele dela.

*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro

terça-feira, 13 de março de 2012

Status Quo ou, Meias Verdades


O status de uma pessoa, que não o meu, me assusta e, pode-se pensar de mim, uma timidez, mas em verdade, a timidez é apenas uma cápsula à qual, inconscientemente, me visto para ser visto pelo outro. Não pense de mim, um ser retraído, moribundo; ao contrário, pense na fobia que sua presença me causa. Não está em mim algum defeito; o seu enigmático mundo é o que me frustra; e você, inconscientemente, não consegue perceber seu trono. Me posto à sua frente, mas você me olha de cima. Não cabe a mim, ou a você, fazer-te mudar. Nem tenho, com este, a intenção; quero, antes, que se aperceba. Quando a sociedade se houver percebida teremos um mundo um tanto menos desigual. O que você tem de bens materiais nem você os percebe pois, se os percebesse conversaria com eles. Conviva com tua casa, tua família, teus livros, advém deles a sabedoria e simplicidade de que precisa. Não pense haver sensibilidade naquilo que não lhe é sensível pois, se o fosse, seu corpo se romperia às esquinas. Habite meu mundo e saberá do que falo. Conviva comigo, e sobreviva a mim. Então, lhe perguntarei qual é o seu status. Não tenho, com isso, a pretensiosa ideia que minhas palavras o farão pensar, quero, antes, que às sinta; cada palavra. Assim como me visto em uma cápsula pra me esconder da sua face imponente, me satisfaria se me desnudasse.

Alexandre Pedro

domingo, 4 de março de 2012

sujeito e predicado



Dentre todas as coisas do Amor...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

quinta-feira, 1 de março de 2012

há sempre em mim





"HÁ SEMPRE EM MIM ESSA SAUDADE;...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Amantes



Sou aquele outro;
*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012


"Esse fardo que carrego me arrasta entre ruas e ruelas.
...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


...e se o mundo acordasse mudo?
Então, o Sol, em ânsia, despertaria nosso sono
e dispersaria nossa mudez, se tornando cinzento.
Nos transformaríamos em bestas fera
e devoraríamos uns aos outros (como se não o fizéssemos)
numa só língua.
O mundo inteiro lamentaria em uníssono grunhidos.
O Sol assistiria a tudo, como quem assiste a própria morte (de fora)
e anteciparia a noite; e se afogaria ao mar.
De dores, seríamos abortados do Ventre Mãe
e acordaríamos de um sonho e não encontraríamos o Sol.
Nos jornais, em diversas línguas, manchetes em letras cinzas:
O MUNDO ACORDOU MUDO E DESCOLORIDO

Alexandre Pedro


domingo, 5 de fevereiro de 2012


A Noite

................então, cai a noite menstruada.

vermelha,

tensa,

áspera,

densa,

in.

fecunda,

espessa,

profunda.

Alexandre Pedro

terça-feira, 31 de janeiro de 2012


"O corpo de Cristo...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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sábado, 28 de janeiro de 2012



Me prendi às palavras de um livro...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

terça-feira, 24 de janeiro de 2012



São Paulo (25/01)

São Paulo em preto e branco,

...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

*Fotografia de Rafael Matsunaga Título: Fotografando São Paulo - 2007

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Prólogo para um monólogo


Acorda, Judas!
O sol bate às janelas
é dia de navio negreiro!
Há portas que abrem, e portas que fecham.

Me revirei na cama, olhos ainda fechados.
Seria um sonho; mas, o que são os sonhos se não, realidade?
Abri os olhos e vi o quarto no escuro.
O que fazem as coisas no escuro?

Acorda, Judas, Acorda!

Meus olhos, vagarosamente, acostumam-se àquela escuridão
então, avistei o meu tudo de cima de tudo.
O tudo que quis, o tudo que tive.
Meus sapatos...meus livros...meu filho.
Eu...eu...eu chamo seu lindo nome.
(engasgo em mim)
Não me responde, brinca com meus óculos.
Meu corpo paira sobre uma cadeira,
tento tocá-la com os pés; não alcanço-a.
Acorda , Judas, acorda!

Sussurro ao entrar no quarto: A corda, Judas. A corda!

O meu tudo tem condenação nos olhos,
e meus pés pisam o ar; ensaiam um caminho aos tropeço.

Alexandre Pedro

domingo, 22 de janeiro de 2012

poema sem mérito de título

Desvio dos pingos de chuva,
pinga, respinga, menina linda!

Piso nos rios que a chuva cria,
pinga, respinga, menina linda!

Canto uma cantiga pra ela passar,
e ela chora.
pinga, respinga, menina linda!

Pinga, respinga, menina linda, a noite inteira,
Que nesse pingar respingar,
me afogo bêbado em qualquer esquina
esperando a chuva passar.

Pinga, ressaca menina, pinga!

Alexandre Pedro

Bondage


Tenho,
em mim,
uma minúscula sutileza;
um certo prazer em ver-te sofrer:
Me agarro às tuas dores para aliviar as minhas.
Alexandre Pedro

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Uns tragos


Trago meu assombro na fumaça do cigarro


...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um lápso e algumas palavras dessacralizadas


Um lápso e algumas palavras

O relógio havia parado.
Percebi o som do seu último tiquetaquear, ainda em falso, suspenso no ar.
Então, o silêncio tornou-se ensurdecedor.
Das janelas, via-se a cidade invertida. Era como se crustáceos olhassem em espelhos
de areia.
Eis que sinto, na garganta, pegadas de algum inseto repugnante a mordiscar, com
sabor, minha jugular.
Hemorrágicamente começo a nadar no tapete do quarto, e percebo lesmas embaixo da cama. Aquele amontoado de línguas a se mover numa suruba lânguida e libidinosa. Sinto-me
atraído como se fossem sereias lascivas.
Tento fugir, procuro por aquilo de que sempre fugi, a Bíblia.
Esta se desfaz em minhas mãos como lembranças de uma primavera distante.
Me arrasto ao telefone pra pedir socorro, e nas minhas mãos tenho cartilagens de
orelhas que emitem sons de ondas quebrando na encosta.
Corro até a janela, e de dentro vejo valagumes orientando um sol apagado, perdido na
órbita.
Meus olhos lacrimejam um sorriso sem dentes.
Um vento traz uma placa letrada de motel e pendura-a no cume da igreja.
Um padre cacareja palavras demoníacas.
Um certo alívio me conforta, e me derruba ao chão, do trigésimo terceiro andar.
Meu crânio estilhaça no chão frio de mármore e meu cérebro emite suas últimas
cenas, como num espetáculo final, com suruba de línguas-lesmas numa catedral derretida pelo deus sol.
A brasa do cigarro queima-me o dedo, e em susto, derrubo a xícara de café que mancha
minhas palavras sagradas.
Das páginas de meus rabiscos, um padre letrado persigna os fieis sobre um pênis avolumado.

Então, o relógio volta a tiquetaquear.
Alexandre Pedro
26/12/2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

Estória de uma prima: Vera


Estória de uma prima: Vera.

"A chuva lhe molhava o rosto. Era primeiro de primavera.
Seu corpo, embebido d'água, rebolava sensual pela alameda já florida, que ladeava sua casa.
Era uma casa com jardim. Na verdade era uma casa no jardim. Não, ainda não era. Era um jardim com uma casa.
Azaléias* lhe sorriam ao ver passar tão bela.
Era eu e Ela.
Azaleia-mo-nos. No jardim. Na casa. Era primavera com ar de verão. Era inverno com ar de outono.
Ventava.
Ao vento, bailava teus cabelos, e eles me balançavam.
Embaralhava-mo-nos por entre as folhas; testemunhas de nossas peripécias, as folhas.
Lembro-me agora, no dia que colhi uma flor e você chorou. Chorou por lembrar haver o bem e o mal.
Chorou por ter despido aquela tão pura rosa, e despojado seu orvalho.
E os girassóis de nada viram. Estavam ocupados em admirar o sol....e ainda estão."

Alexandre Pedro
24/12/2011

*Azalea ( nome correto da planta )
Imagem: Di Cavalcanti

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011


Bebi de tuas palavras,
...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.
Alexandre Pedro

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Homenagem ao poeta MANOEL DE BARROS, que completa hoje, 95 anos.

Entrada


Distancias somavam a gente para menos.
Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele.
Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores.
Meu avô abastecia a solidão.
A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:
O dia está frondoso em borboletas.
No amanhecer o sol pôs glorias no meu olho.
O cinzento da tarde me empobrece. e o rio encosta as margens na minha voz.
Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar.
Eu queria que as garças me sonhassem.
Eu queria que as palavras me gorjeassem.
Então, comecei a fazer desenhos verbais de imagens.
Me dei bem.
Perdoem-me os leitores esta entrada mas vou copiar de mim alguns desenhos verbais que fiz para este livro.
Acho-os como os impossíveis verossímeis de nosso mestre Aristóteles.
Dou quatro exemplos:
1) É nos loucos que grassam luarais;
2)Eu queria crescer passarinho;
3) Sapo é um pedaço de chão que pula;
4) Poesia é a infância da língua.
Sei que meus desenhos verbais nada significam.
Nada.
Mas se o nada desaparecer a poesia acaba.
Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Manoel de Barros
Texto extraído da abertura do livro: Poesia Completa - Manoel de Barros, 2010

domingo, 4 de dezembro de 2011



Ex vazio
para G.M

eu amo aquele que se perdeu em mim/de mim.
De distância e mistério se firmou,
tal qual, eu.
Ao longe, me busco à face tua
pra concretizar o meu vazio.
vazio tanto que esvai,
ex vazio
ex vazio
esvai em mim em líquido
amarelo quando gira o sol,
e vejo você das janelas virtuais de nossas casas.

Alexandre Pedro
Imagem: Mi Muher Desnuda - Salvador Dalí

Vão entre becos



‎"eu tenho uma sombra que não me quer levantar,

...Esta publicação foi removida devido ao texto estar inserido no livro de estreia do autor, com lançamento em breve por Giostri Editora. Maiores informações alexandre.eells@gmail.com 
Agradeço à visita e ao carinho. Alexandre Pedro


Fotografia: Nuno Ramos

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Se ( Reflexo Condicional )

‎"E se o vento cessasse?

E, se as palavras regressassem?

E, se eu ousasse dizê-las?

E se um anjo caísse?

E, se eu levantasse?

E, se Augusto adoecesse?

E, se Drummond despertasse?

E, se...."

Alexandre Pedro
10-11-2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Caminho Suicida

Deitado sobre os trilhos:
dois caminhos que não se cruzam
mas que não são distintos.
Caminham lado a lado.
Num pólo a cabeça,
no outro os pés.
Vida e Morte.

Alexandre Pedro

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O mundo precisa ler isso: Do livro "A Náusea", publicado em 1938, um ano antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial


"(...) no entanto a natureza vaga penetrou em sua cidade, infiltrou-se por todo lado, em suas casas, em seus escritórios, neles próprios. Não se mexe, mantém-se quieta, e eles estão bem dentro dela, respiram-na e não a vêem, imaginam que ela está lá fora, a vinte léguas da cidade. Mas eu vejo essa natureza, vejo –a...Sei que sua submissão é preguiça, que La não tem leis: o que acreditam ser sua constância...Ela tem apenas hábitos e pode mudá-los amanhã.

Se acontecesse alguma coisa? Se de repente ela começasse a palpitar? Então eles perceberiam que ela está presente ali e teriam a impressão de que seus corações iam se quebrar. Então de que lhes serviriam seus diques e suas muralhas e suas centrais elétricas e seus altos fornos e seus martelos-pilões? Isso pode acontecer a qualquer momento, talvez imediatamente: os presságios aí estão. Por exemplo, um pai de família, passeando, verá vir em sua direção, através da rua, um trapo vermelho como que empurrado pelo vento. E quando o trapo estiver bem perto dele, verá que é um pedaço de carne podre maculada de poeira, que se arrasta, saltitando, um pedaço de carne torturada que rola nos riachos, projetando, por espasmo, jatos de sangue. Ou então uma mãe olhará para a face de seu filho e lhe perguntará: “Que que você tem aí? É uma espinha?”, e verá a carne empolar um pouco, fender-se, entreabrir-se, e, no fundo da fenda, um terceiro olho, um olho risonho surgirá. Ou então sentirão suaves roçaduras por todo o corpo, como as carícias que nos rios os juncos fazem nos nadadores. E perceberão que suas roupas se transformaram em coisas vivas. Outro sentirá que há algo arranhando sua boca. E se aproximará de um espelho, abrirá a boca: e sua língua se terá tornado uma enorme centopéia viva, que baterá as pernas e lhe arranhará o céu da boca. Tentará cuspir, mas a centopéia será uma parte dele mesmo, e ele terá que arrancá-la com as mãos. E quantidades de coisas surgirão, para as quais será preciso encontrar novos nomes, o olho de pedra, o grande braço tricorne, o artelho-muleta, a aranha maxilar. E quem estiver dormindo em sua boa cama, em seu tranqüilo quarto quente, acordará inteiramente nu num chão azulado, numa floresta de pênis estrepitoso, vermelhos e brancos, erguidos para o céu como as chaminés de Joutexbouoville, com grandes testículos meios saídos da terra, peludos e bulbosos como cebolas. E pássaros esvoaçarão em torno desses pênis e os picarão com seus bicos e os farão sangrar. Escorrerá esperma desses ferimentos, lentamente, suavemente, esperma misturado com sangue, vítreo e morno, com pequenas bolhas. Ou então nada de tudo isso acontecerá, não ocorrerá nenhuma mudança apreciável, mas as pessoas, uma manhã, ao abrirem suas persianas, serão surpreendidas por uma espécie de sentido terrível, pesadamente pousado nas coisas e que parecerá estar à espera. Apenas isso: mas por pouco tempo que isso dure, haverá centenas de suicídios. Homens inteiramente sós, sós com suas horríveis monstruosidades, correrão pelas ruas, passarão pesadamente diante de mim, os olhos fixos, fugindo de seus males e trazendo-os consigo, a boca aberta, com sua língua-inseto batendo as asas. Então estourarei de rir, mesmo se meu corpo estiver coberto de nojentas crostas suspeitas, que se abrem flores de carne, violetas, em ranúnculos. Encostar-me-ei numa parede e gritar-lhes-ei ao passarem: “Que fizeram de suas ciência? Que fizeram de seu humanismo?” Não sentirei medo. Não será tudo isso a existência, variações sobre a existência? Todos esses olhos que devorarão lentamente um rosto certamente serão demais, mas não mais do que os dois primeiros. É da existência que sinto medo.”


Imagem: O Grito - Edvard Munch, 1893

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Luto pela Palavra


Luto constante à Poesia
Luto pela Palavra
tento eximi-la de mim
e, ela me fala na lata:

Não estou em você,
Não estou pra você,
e você não está em mim.
Estou em quem me lê
e não em quem me escreve.


"Toda obra de arte traz em si o dever de ser inacabada."

Alexandre Pedro

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Da série “Inconstâncias”:

Réstias

Das janelas,
réstias de palavras sobre a mesa
Esta publicação foi removida devido a obra estar inserida no livro de estreia do autor, em breve pela Giostri Editora. Muito obrigado pelo carinho!
08/08/2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Feliz Dia das crianças, molecada!


Lembranças

Este foi meu segundo poema e, dedico àqueles a quem a vida lhes deu um tropeço.


Andando pelas ruas à noite;

luzes acesas projetam sombras

nas calçadas de paralelepípedos.


Lembranças da infância:

Pedrinho passa a bola,

Chuta!!! Chuta!!!

Vem me driblar...

Olha o carro!!!

Crashhhhhhh


- Pedrinho tem a sombra menor

e mais cheia que a minha.


Alexandre Pedro

Setembro, 2010



domingo, 9 de outubro de 2011

DISRITMIA

Já não vou rimar menina com menino;
vou rimar homem com barba...
quero a fruta na fruta;
a fruta da fruta, do fruto.
quero colhê-las no galho,
arrancá-las do talo.
quero trepar nas árvores
e cuspir as semen.tes e,
com as folhas,
encobrir minhas vergonhas.

Alexandre Pedro

Da Imagem: Alexander Kiselev, " A Morte de Jacinto".

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fidelidade

Amava com sofreguidão. Mas se amava, amava com fidelidade a Maria?
No limiar das consequências vinham as dores num assombro quando a noite vinha.
Se refugiava em bebedeiras. Vinhos sortidos se misturavam quando Maria não vinha.
Surtiam efeitos no dia que se seguia, e seguia, e seguia.
Seguia?
Seguia cego, a garganta seca de saudade e ciúme. Aonde assombrava a Maria?
Assombrado saía às ruas; luzes dos postes acesas, lua cheia, rua vazia, vazio andava. Apenas meninas de saias curtas e batons vermelhos.
De esquina em esquina, um cigarro. De poste em poste, rosnava.
A secura da garganta já havia tomado o estômago.
Fome não sentia.
Sede nao percebia.
Amor? Ah, Maria!
Do portão de sua casa, chamava , gritava, chorava. Sabia que estava em casa. Luzes de velas sobre as mesas. Estaria acompanhada? Recebiam-no cheiros de flores.
Flores?
Mas quem havia, ali, as deixado?
O ciúmes o tomava o fôlego. Aquele cheiro lhe embrulhava o estômago, era cravo.
Do portão ele avistava uma cruz. Os braços abertos o chamavam para dentro. No ante braço esquerdo jurava amor eterno. E como homem fiel pulara aquela cerca. A cerca para o outro lado. E nunca mais sentimos nada. Nem ele, nem ela, nem eu.

Alexandre Pedro
28/09/2011

domingo, 25 de setembro de 2011


O tempo que te resta

Para G.M


Antes de algum sorriso,

Uma lágrima.

Para o bem de todo mal,

A solidão.

Uma flor no precipício,

Vermelha.

Antes do escuro,

Uma chama.

Antes do mergulho,

Alguém que ama.

A ausência se faz presente,

E, me traduz em você.

Alexandre Pedro

SP – 01/02/2011


domingo, 18 de setembro de 2011

Spa da Mente

Carregava ele, sua cabeça nos braços. Seu corpo encurvava, todo ele, em sua jornada. Os dias se tornavam pesados em sua total intensidade. Buscava abraçar os filhos ao chegar do trabalho, mas suas forças eram tão majestosamente exausta que caía ele na poltrona a observar a tv, sem força para ligá-la. A cabeça repousada, ao lado.
Com muito, muito esforço pegava o controle e com um leve tocar de dedos clicava fazendo arder em chamas aquele enorme tubo negro. Dava para se ouvir um chiado. Como se um mundo abrisse à sua frente. Seus dedos tensos mergulhavam nos botões duros do controle. Um fragmento do tempo falhara e, nesse átmo entrava ela, em cena.
O brilho da tela fazia com que sua companheira, a cabeça, despertasse e ficasse ali, de novo, vividamente a observar, com ar desprezível, seu companheiro. Ela lhe condenava os dias; um fardo árduo nos braços.
Agora ela o encarava; olhar desafiante; fitava-o como a demonstrar toda insignificância do seu ser mutilado. Suas forças esvaiam-se por toda.
Não se auto conhecia a priori pra duelar com sua companheira. Olhava-a, bastava e já se cansava.
Então, foi quando na parede da sala, em um quadro imenso que a enfeitava, num recorte da tela onde se podia ver uma cidade, onde se podia ver, também, uma casa, um jardim, e no jardim podia ver-se crianças, e cada uma delas, segurava em suas pequeninas mãos um pirulito, ele percebeu-se na vida. A vida estava naquele ser redondinho, amarelinho que, todo salivado, concentrava toda atenção daquela não mais criança. O mundo era sua vida, sua vida era sua casa. Sua casa era seu limite. Seu limite estava ali, na tv, no controle. Ele era o limite de si mesmo. Saboreava com dissabor a vida que lhe brilhava na tela. E a confusão estava feita em sua pesada cabeça. Foi quando, assustado, saltou engolindo a saliva. Foi a primeira vez que fizera duas coisas ao mesmo tempo e ainda, sem pensar. A personagem da tv havia deixado de contracenar e agora trocava palavras com ele. Palavras de saber que ele correspondia e sentia-se orgulhoso, astuto, obstinado, até viril se achava, por haver no mundo, alguém que lhe prostrasse a sua frente e sorrisse junto dele; para ele e pela primeira vez, com ele. E ela, a cabeça, começara a rir, rir, simplesmente, rir daquela cena ignorante, e sua insignificância se desfez. Seus braços já não podiam sentir o peso de sua cabeça. A consciência voltara para aquela caixinha cinzentinha com gavetinhas; ele deixara aquela sala; agora seu mundo estava pintado na tela: da tv. Ele voltara a ser criança. A moça na tela da tv era uma fada. A fada vento. E lhe entregara uma espada. A espada mente.

Alexandre Pedro