E, se as palavras regressassem?
E, se eu ousasse dizê-las?
E se um anjo caísse?
E, se eu levantasse?
E, se Augusto adoecesse?
E, se Drummond despertasse?
E, se...."
Alexandre Pedro
10-11-2011
Seja bem vindo!!!
-Entre,-Tire os sapatos,-Sente-se e fique à vontade.-vou pôr uma música.-Aceita um café?- Gosta de livros?- escolha um e vá folheando,-volto já, com o café.

"(...) no entanto a natureza vaga penetrou em sua cidade, infiltrou-se por todo lado, em suas casas, em seus escritórios, neles próprios. Não se mexe, mantém-se quieta, e eles estão bem dentro dela, respiram-na e não a vêem, imaginam que ela está lá fora, a vinte léguas da cidade. Mas eu vejo essa natureza, vejo –a...Sei que sua submissão é preguiça, que La não tem leis: o que acreditam ser sua constância...Ela tem apenas hábitos e pode mudá-los amanhã.
Se acontecesse alguma coisa? Se de repente ela começasse a palpitar? Então eles perceberiam que ela está presente ali e teriam a impressão de que seus corações iam se quebrar. Então de que lhes serviriam seus diques e suas muralhas e suas centrais elétricas e seus altos fornos e seus martelos-pilões? Isso pode acontecer a qualquer momento, talvez imediatamente: os presságios aí estão. Por exemplo, um pai de família, passeando, verá vir em sua direção, através da rua, um trapo vermelho como que empurrado pelo vento. E quando o trapo estiver bem perto dele, verá que é um pedaço de carne podre maculada de poeira, que se arrasta, saltitando, um pedaço de carne torturada que rola nos riachos, projetando, por espasmo, jatos de sangue. Ou então uma mãe olhará para a face de seu filho e lhe perguntará: “Que que você tem aí? É uma espinha?”, e verá a carne empolar um pouco, fender-se, entreabrir-se, e, no fundo da fenda, um terceiro olho, um olho risonho surgirá. Ou então sentirão suaves roçaduras por todo o corpo, como as carícias que nos rios os juncos fazem nos nadadores. E perceberão que suas roupas se transformaram em coisas vivas. Outro sentirá que há algo arranhando sua boca. E se aproximará de um espelho, abrirá a boca: e sua língua se terá tornado uma enorme centopéia viva, que baterá as pernas e lhe arranhará o céu da boca. Tentará cuspir, mas a centopéia será uma parte dele mesmo, e ele terá que arrancá-la com as mãos. E quantidades de coisas surgirão, para as quais será preciso encontrar novos nomes, o olho de pedra, o grande braço tricorne, o artelho-muleta, a aranha maxilar. E quem estiver dormindo em sua boa cama, em seu tranqüilo quarto quente, acordará inteiramente nu num chão azulado, numa floresta de pênis estrepitoso, vermelhos e brancos, erguidos para o céu como as chaminés de Joutexbouoville, com grandes testículos meios saídos da terra, peludos e bulbosos como cebolas. E pássaros esvoaçarão em torno desses pênis e os picarão com seus bicos e os farão sangrar. Escorrerá esperma desses ferimentos, lentamente, suavemente, esperma misturado com sangue, vítreo e morno, com pequenas bolhas. Ou então nada de tudo isso acontecerá, não ocorrerá nenhuma mudança apreciável, mas as pessoas, uma manhã, ao abrirem suas persianas, serão surpreendidas por uma espécie de sentido terrível, pesadamente pousado nas coisas e que parecerá estar à espera. Apenas isso: mas por pouco tempo que isso dure, haverá centenas de suicídios. Homens inteiramente sós, sós com suas horríveis monstruosidades, correrão pelas ruas, passarão pesadamente diante de mim, os olhos fixos, fugindo de seus males e trazendo-os consigo, a boca aberta, com sua língua-inseto batendo as asas. Então estourarei de rir, mesmo se meu corpo estiver coberto de nojentas crostas suspeitas, que se abrem flores de carne, violetas, em ranúnculos. Encostar-me-ei numa parede e gritar-lhes-ei ao passarem: “Que fizeram de suas ciência? Que fizeram de seu humanismo?” Não sentirei medo. Não será tudo isso a existência, variações sobre a existência? Todos esses olhos que devorarão lentamente um rosto certamente serão demais, mas não mais do que os dois primeiros. É da existência que sinto medo.”
Imagem: O Grito - Edvard Munch, 1893

Lembranças
Este foi meu segundo poema e, dedico àqueles a quem a vida lhes deu um tropeço.
Andando pelas ruas à noite;
luzes acesas projetam sombras
nas calçadas de paralelepípedos.
Lembranças da infância:
Pedrinho passa a bola,
Chuta!!! Chuta!!!
Vem me driblar...
Olha o carro!!!
Crashhhhhhh
- Pedrinho tem a sombra menor
e mais cheia que a minha.
Alexandre Pedro
Setembro, 2010

Da Imagem: Alexander Kiselev, " A Morte de Jacinto".
Carregava ele, sua cabeça nos braços. Seu corpo encurvava, todo ele, em sua jornada. Os dias se tornavam pesados em sua total intensidade. Buscava abraçar os filhos ao chegar do trabalho, mas suas forças eram tão majestosamente exausta que caía ele na poltrona a observar a tv, sem força para ligá-la. A cabeça repousada, ao lado.
É duro ser cabra na Etiópia - Silvana Rocha
Em meio ao nada
Pele seca, desidratada
Castigada
Cicatrizes pelo corpo
Dor, desilusão
Estômago vazio
Na boca só sinto o amargor...
Amargura dessa vida dura!
Sinto o tilintar das costelas
Ambulante carcaça velha!
Articulações rangendo
Sons que me acompanham
Nessa longa aventura.
Com esperança
Ainda caminho, mesmo que lentamente,
Sentindo o desconforto da terra árida.
Secura!
Pobreza pura...
O sol em brasa queima minha face...
Me deixa anestesiada...
Em estado de torpor.
Vejo minha sombra distorcida na terra seca
Pareço-me com o quê?
Não consigo raciocinar direito
Sinto um vazio no peito
Acidez!
Queimação sem fim
E parece que não tem jeito...
O jeito é caminhar...
E quem sabe nada encontrar.
Creio que há esperança
Um oásis talvez
Logo ali ou bem distante dali
Perdi a noção de espaço
De profundidade
Não enxergo direito
Mas o sol continua a arder na minha face.
O oásis? Claro, era miragem!
Continuo a jornada árdua
Tropeçando em pedras, pedregulhos, seixos
Galhos secos ferem meus pés calejados.
Um pássaro bem ali, no chão, morto...
Esturricado pela ação da natureza.
Frieza...
Continuo meu tormento indiferente.
Mas minha esperança de encher meu estômago
Queima tal qual o sol
Não desisto...
Já andei algumas milhas
Quero molhar minha boca
Cadê meu pingo d’água?
Água! Maravilha!
Uma zonzeira agora me abateu,
Tontura, vertigem,
Um mal súbito qualquer que me derrubará
Talvez a alguns metros daqui.
Acolá! Não sei...
Não sinto mais o sol.
Cabeça zonza, zumbido, zoeira
Moscas varejeiras ao redor.
Minha pele cada vez mais seca.
Diante de meus olhos cansados que já não enxergam direito
Devido à rude caminhada
Vejo com dificuldade mais uma carcaça de animal diante de mim.
Não...desta vez é uma criança.
Não me lembro mais de nada....
Silvana Rocha
Este texto foi elaborado para participar em uma seleção de autores diversos para o livro "É duro ser cabra na Etiópia" que será lançado por Maitê Proença, e, gentilmente cedido pela autora ( minha professora de Língua Inglesa do curso de Letras ) - Silvana Rocha
* Este texto tem seus direitos autorais; não podendo ser utilizado sem permissão do autor.
Para G.M
...tanto de mim fora de mim,
num outro que não sou eu,
e, que tanto tenho de si em mim,
que dispersam todos meus EUS.
cravado, gravado, grafado
eu assim engasgado,
assim suave,
gaguejado e inexorável
no inexplicável
das minhas razões sem razões.
Como uma linha determinada a preencher um vazio
que envolve nossos corações e os transbordam num só Ser,
o Amor.
Alexandre Pedro
SP – 08/01/2011
Algumas vezes ela tenta vir. Vem vindo, vem vindo...
Nem sempre me toca.
Um dia, acredito, ela me toma por todo. E eu, vencido, me acalentarei no seu confortável marasmo.
Minuciosamente me fala aos ouvidos. Palavras de um eu que não é meu.
Ela fita-me os olhos, profundamente me venda. E eu, às cegas, tateio um quase suave sonho.
Acordo, e me busco. Me encontro mas, me ofusco no silêncio envolvente que...que me encrespa às paredes. Do quarto. Do meu estômago.
Uma quase maravilha me arrebata de um quase acordar, e volto a dormir. Então sonho.
Sonho de criança perdida chutando pedrinhas sem perceber estar perdida. Sem ao menos imaginar que outros a procuram.
Nuvens são como algodão doces. E, como!
Como por encanto.
Alexandre Pedro
23/08/2011
Difícil é ser cabra na Etiópia.
É fácil ter a pele seca encostada poeticamente nas paredes das costas, comprimindo o parco estômago, oco.
Difícil é estar na pele da cabra ambiguamente comparada.
A pele turva, áspera tal qual o chão de rachuras do sertão que lasca tiras de sede.
A pele tensa em sua frouxidão ressequida. O âmago no olhar do abutre que circunda a quase vida ou, o que lhe fora e, agora só lhe resta a quase morte.
A única chama está no ventre; nem aos olhos lhe prostra o brilho, pois neles, refletem as sombras das asas do enigmático corvo.
Quantas vidas tem uma alma. Onde estão seus limites?
Um vulto se aproxima...da vida? ...da morte?
Alexandre Pedro
18/08/2011
Texto elaborado para participar de um seleção num projeto de livro da Maitê Proênça - É duro ser cabra na Etiópia - à convite do Professor Adilson Oliveira.


Passo depressa pelas ruas desta cidade.
Às pressas passo, passo a passo, passo.
Ao meu lado os passos apressados
Atropelam-se e me atropelam.
Aonde vamos?
Nesta cidade tem espaço para cada passo,
Espaço aos fracos e aos fortes.
Aos ricos e aos pobres,
Aos decentes e aos devassos.
E seguimos no compasso dos passos apressados...
Alexandre Pedro
SP-09.2010

Astros
Era um amor impossível.
Aos desencontros.
Os astros não permitiam.
Entre eles havia Ela e seus anéis,
Sensual, encantadora.
O azul atraía o amarelo que traía a prata que atraía o amarelo.
Era um trair, atrair, que retraíam-se atrás do escuro universo.
A solidão era tamanha.
Então, do Céu caíra uma estrela,
Rasgando em sua face enorme cicatriz.
E a Lua, atordoada,
sorrira ao ver seu Amado ardendo nos braços da Outra.
E então, não veio a noite...
...e a Lua chorou ao ver a chama do amor inflamando a Terra.
Alexandre Pedro
Imagem: "Namoro com a Lua" de Ismael Nery


Transeunte
Para G.M
Vou, na sensação de deixar parte de mim,
Mas, se essa parte que em mim, sente, é a parte que deixei,
Como posso ter tal sensação, na parte que de mim partiu?
Diria Drummond: “A ausência é um estar em mim”.
E, dou me pela falta da ausência, que já não mais está em mim.
Eu não mais estou em mim.
Estou aqui, contigo!
Sou as palavras que nesse momento te prende.
Sou esse arrepio que sentiu.
Este olhar para os lados.
Estas palavras que, tão desgastadas pelo tempo, teimam ficar para contar minha perda.
E quem sabe te dar a resposta, se vivi a falta ou a própria ausência.
Eis a dúvida que minha presente vida, não respondeu.
Alexandre Pedro


Santa Ceia
Apreciavam no prato o pedaço da morte.
Degustavam a alma sangrenta ausente no corpo.
Lambiam os lábios molhados de sangue.
Cheiravam o frescor da carniça.
Doze abutres famintos
para o dom de um Bastardo, pousavam.
Mantos vermelhos revelavam a traição, o pecado.
O sangue de lama negra das nações dos alienados,
escorria do vaso sagrado posto à mesa,
em formato vaginal.
In memoriam de Maria,
em alma
ausente.
Alexandre Pedro

A carta
Tinha de ser uma carta de amor,
Mandara a ela num misto de saudade e dor,
Em seu interior a descoberta do amor arrependido e desejoso.
Quisera voltar atrás, pois, havia fugido da felicidade a dois.
Mas, a essência selada no envelope perdera-se no caminho...
Abatida pela solidão de um amor incompatível,
E, entregue ao sofrimento da desilusão,
Buscava respostas, refletia momentos,
Sorria de tristeza e chorava de alegrias.
Inconformada não encontrava razão, nem prazer.
Noutro lugar ele chorava,
Suas lágrimas eram de descoberta e almejavam perdão.
Aqui, lamentava ela a ausência do amado.
- Soluçavam...
Resolvera ele escrever a carta que acompanhava flores
e um belo cartão romântico anunciando sua volta.
Recebera ela um telefonema.
Do outro lado, uma voz suave engasgada na terceira pessoa
perguntava por Lia.
O cão dócil levanta as orelhas em atenção.
Um zumbido na janela anuncia os primeiros pingos de chuva.
A cortina esvoaçava.
A TV, em silêncio, anuncia um acidente na Rodovia.
Do outro lado as palavras pulsantes cravadas como um punhal, frias.
Um sussurro engasgado...
Um chão que se perde...
...Um nada.
Uma dor.
Um vazio.
...
- Vago!
- Eu Vago pela casa.
Tranco a janela,
Desligo a TV,
Apago as luzes,
Soa a campainha,
Não atendo,
Sou só e vago.
A campainha insiste,
Atendo,
Uma carta,
Um buquê,
Um cartão.
- Mas, tinha de ser uma carta de amor,
- Era a DOR.
Alexandre Pedro
SP – 25/11/2010
***Este poema tem seus DIREITOS AUTORAIS registrados na Biblioteca Nacional. Reprodução somente possível com pré autorização do autor, Alexandre N. Pedro.