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Alexandre Pedro
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade Vs Chico Buarque de Hollanda


Numa época em que o mundo se calava, pois, assim era preferível, eles optaram por gritar, silentes.

Carlos Drummond de Andrade, nascido em Minas Gerais - 1902 - é um dos maiores poetas brasileiros.
Chico Buarque de Hollanda, nascido no Rio de Janeiro - 1944 - é um dos maiores nomes da música popular brasileira, com sua extensa obra literária caminhando paralelamente à música.
Do livro "A Rosa do Povo", publicado em 1945, o poema "A Flor e a Náusea", assim como o livro, trata de uma época sufocante num período em que o mundo deglutia a Segunda Guerra Mundial; e no Brasil especificamente, a Ditadura de Getúlio Vargas.
Drummond foi capaz de captar todo sentimento, dor e agonia desta época, e mais importante, conseguiu transformar tudo isso em poesia.
Drummond começou escrevendo muito cedo, foi funcionário público e escreveu até a data de seu falecimento, ocorrida aos 85 anos de idade.

E minha proposta é que você, caro amigo, compare este poema com a obra de Chico Buarque, "Rosa dos Ventos".
No primeiro poema ( de Carlos Drummond ), A Rosa é a representação de um mundo novo, em que o poeta acredita e que está por surgir. No segundo poema ( de Chico Buarque ), a Rosa representa a sociedade que já pode olhar para este novo mundo idealizado. Este Mundo chegou, e é a própria sociedade quem desperta, ainda que tarde, para o despertar de um novo tempo, e a esperança que já havia sido perdida, renasce com força no coração do cidadão oprimido.
Seria injusto colocar dois poemas do Drummond, contra um do Chico, mas a idéia não é de oposição, e sim de complementação; portanto no final desta postagem, colocarei um segundo poema de Carlos Drummond de Andrade, em que os dois poemas já citados ( Chico Vs Drummond ), dialogam perfeitamente. Me refiro ao poema " Áporo ".


A Flor e a Náusea
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma conta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns ache belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária do erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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Rosa dos Ventos
Autor: Chico Buarque


E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

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ÁPORO ( Publicado em A Rosa do Povo )
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

Neste último poema, Drummond discursa sobre um inseto ( o áporo ) que vai cavando sem achar saída, vai perfurando o poema até a sua transformação numa orquídea, que perfura o asfalto. O que é uma tradução de uma sociedade que depois de tanta luta, tanto sofrimento, desabrocha pra um novo mundo de esperanças.
Há ainda uma visão política no trecho:

Eis que o labirinto
( oh razão, mistério )
Presto se desata:
Possível alegoria a Luis Carlos Prestes, que acabara de ser libertado pelo Regime Militar. Pode ser interpretado como o Áporo buscando caminho na pátria sem saída, que se tornou o Brasil durante a Ditadura de Vargas.

Espero que não tenha sido cansativo pra você, leitor. Pois pra mim foi um imenso prazer, fazer esta comparação.
Abraço,
Alexandre Pedro

12 comentários:

  1. Oi Alexandre. Bacana sua comparação entre Drummond e Chico. Gostei muito, mesmo porque cada com sua arte me atrai muito. Gosto muito da poesia de Drummmond e adoro as composições do Chico.Um abraço. Seu blog já é leitura obrigatória para mim.

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  2. Ah que maravilha!!!
    É tão importante saber que de alguma forma estou agradando, e saber que não está sendo em vão, pois, pessoas como você prestigiam e valorizam, minha simples diversão, mas que faço com muito carinho e respeito àqueles que lerão.
    Obrigado pelo carinho, seja sempre bem vindo. Espero estar sempre contribuindo no seu dia a dia, com suas leituras.
    Estou realmente contente com sua presença por aqui.
    Abraço,
    Alexandre Pedro

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  3. Oi, Alexandre, obrigado pela visita no depósito. Muito legal este espaço, pesquei aquele poema do Álvares de Azevedo - Meu sonho - sobre masturbação e também aquele aparelho inglês.

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  4. Oi, C.Eduardo, Obrigado por estar aqui também.
    Seja bem vindo e fique à vontade!
    Forte abraço, amigo.
    Alexandre

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  5. Oi, Alexandre. Bem bacana o seu blog. Vou acompanhar mais de perto :)
    beijo

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  6. Bípede,
    Que bom te-la presente aqui no Cárcere,
    Seja muito bem vinda!
    Obridado pelo carinho e atenção.
    Bjs
    Alexandre Pedro

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  7. Você sabia que no Brasil existiu campo de concentração antes da 2ª guerra mundial. Ver em:

    http://valdecyalves.blogspot.com/2010/10/caminhada-da-seca-de-senador-pompeu-em.html

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  8. Ótima dualidade, são os dois poetas que para mim são os mais inteligentes e contestadores. Eles conseguem falar de amor, ódio, paixão, revolta, sensações e emoções de um jeito único. Fantástica comparação! Parabéns!

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  9. Tudo começou aqui !
    Obrigada Amigo...por compartilhar conosco essa maravilha! T amo

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  10. Verdade, Ivani...e a imagem deles, batendo palmas, falam por nós. te amo! Bjao

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  11. Caro Alexandre,
    Cheguei ao seu blog, googlando pela letra de Rosa dos Ventos para escrever a minha filha. Moro em Amsterdam e como estou distante do Brasil acompanho as correntes manifestações um pouco assustada por não haver identidade dos organizadores, já que no Brasil atual ´não há necessidade de ocultamento. Só que essa comparação dos poetas foi uma benção. Obrigada por esta costura poética.

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  12. Olá, (amigo de Berlim).
    Que bom que tenha chegado até aqui. Dessa comparacão acabou - num futuro - nascendo o meu trabalho de faculdade. Foi uma das coisas mais incríveis em que trabalhei. Obrigado pela visita, e pela preocupação com nosso país. Está sim um pouco tenso; muitos boatos nessas horas surgem, mas acredito ser apenas uma manobra política e a mídia se fazendo presente. O famoso PIG tentando fazer uso de seu discurso. Triste, mas haverá de ser válido. Sigamos em frente. Muito obrigado!!! Alexandre Pedro

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