Seja bem vindo!!!
-Entre,
-Tire os sapatos,
-Sente-se e fique à vontade.
-vou pôr uma música.
-Aceita um café?
- Gosta de livros?
- escolha um e vá folheando,
-volto já, com o café.
Alexandre Pedro
e-mail: alexandre.eells@gmail.com

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sexta-feira, 6 de março de 2015

O poeta e a leitura do silêncio

entrevista concebida pela Revista São Paulo Review: por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos *


Tendo publicado seu primeiro livro, Flores do ócio, em 2013, Alexandre Pedro destaca-se na novíssima geração de poetas paulistas surgida a partir do advento da internet. Tem escrita depurada, em que dizer pouco e tentar compreender o silêncio acabam permitindo entender muito da condição humana e de suas angústias. Formado em Letras, comanda um blog sobre literatura – Cárcere do Ser -, através do qual tem despertado e incentivado muitos jovens ao exercício da escrita.

Pode nos contar um pouco sobre sua formação?
Bom, cheguei nadando na contramão, sem ao menos perceber que a contramão exercia em mim, além da física, uma placidez que, na minha ignorância, interpretava-na como sossego. Ingressei na universidade, no curso de Letras, sem ao menos saber o que viria a ser um “letrado”. Não havia, até então, sequer pensado na palavra literatura. Mas lá estava eu; sem ter lido um livro sequer: onde os nomes Guimarães Rosa, Clarice, Drummond eram apenas umas palavras ao vento. Desconhecidos, para mim.

Estudei em escolas públicas e fiquei bastante tempo desocupado e quando assumi continuar meus estudos, ingressando numa faculdade, eu era um pacote vazio – impresso. Em mim, uma data de validade já era reminiscência.

E o interesse pela poesia, quando surgiu? 
No terceiro semestre do curso de Letras, quando tudo ainda era uma grande charada que eu tinha que desvendar, um professor de Linguística decidiu que a nossa turma teria que, ao final do semestre, apresentar algum tipo de produção: crônica, poesia, conto… O que eram esses gêneros textuais para aquele aluno que, de olhos vendados, tateava no escuro a palavra?

Abismado frente à tarefa, resolvi esboçar qualquer coisa e que ele, em sua competência, desvendasse essa coisa: se estaria ao menos próximo de um conto, poesia ou crônica, e que no decorrer do semestre ele me orientasse. Acontece que quando entreguei o esboço, ele gostou. Chamou-me poeta. Entregou esse material para a minha professora de Literatura e, juntos, criaram na universidade um concurso de escrita e me inscreveram. Em minha ignorância, no dia do concurso, em vez de escrever um poema, e devido a minha insegurança naquilo que estava fazendo, escrevi três. Levei bronca do fiscal de sala. Mas como os três textos estavam na mesma folha, foram lidos. No dia da apuração, levei os três prêmios. Primeiro, segundo e terceiro lugares, no gênero poesia.

A partir daí, eu me interessei por alguma coisa. Uma luz acendeu: era a poesia.

Acredito que a universidade tem essa função. Você não sai de lá sabendo de tudo – às vezes sai sem saber de nada -, mas, se você quiser, lá de dentro sai um rio que segue para inúmeros horizontes. Você é quem decide se quer ou não nadar. E eu nado.


Que autores o influenciaram mais de perto? 

Drummond. Com certeza, Drummond.

Li numa entrevista em que ele dizia ao professor Luís Milanesi, a respeito de alguns alunos da USP que queriam autorização para musicar seus poemas:

‘Se eu não subir aos céus nas asas da poesia, subirei nas asas da música.’

Existe um estalo maior que esse?


Como tem sido a relação com os leitores do Cárcere do Ser, seu blog, que já conta com quase 50 mil acessos? 
Chegamos a 60 mil acessos. (risos) Hoje, com o avanço da tecnologia, a internet é uma das maiores ferramentas para a literatura. As pessoas descobriram que o ato da escrita não é divinal. É humano. E por ser humano, vai em busca de saciar a sede da linguagem. E nos tornamos amigos além da linguagem.


‘Um pouco mais de sol – eu era brasa.

Um pouco mais de azul – eu era além.’



Seu livro de estreia, Flores do ócio, apesar do aparente desinteresse do grande público pela poesia, vem tendo sucessivas tiragens. A que atribui isso? 
Exclusivamente à internet. Não sou aquele que frequenta saraus. Tenho preguiça da poesia em boteco. Alguns me chamam antissocial. Mas não sou. Acredito que a literatura é uma intimidade do leitor-autor com a palavra. Ainda vamos descobrir uma forma de ler os silêncios.

Sua poesia é muitas vezes carregada por um ceticismo perspicaz com a condição humana. Você se define com um cético?
Preciso, antes, me definir como humano.

Novos projetos para 2015? 
Meu segundo livro, Cárcere do ser, está pronto. Estou à procura de uma editora: esta é a parte difícil da literatura no Brasil. Participo, atualmente, junto a outros sete escritores, do Projeto ‘Doam-se Palavras’. Doamos e doemos, quinzenalmente, algumas palavras aos que têm fome do verbo. Acabo de prefaciar o livro MiniMáximas, do Samuel Malentacchi, lançado em janeiro. Continuo tão perdido como quando ingressei na universidade. A diferença é que agora a contramão é minha ciente opção. E minha data de validade é ortografada na poesia.

*Fragmento do poema Quasi, de Mário de Sá Carneiro


Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Itamar Santos é mestrando em Literaturas Comparadas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP)

domingo, 12 de outubro de 2014

Rua Projetada



Nossa casa era de tábuas, e nem era nossa, mas habitava a rua Projetada. Rua formosa numa cidade de nome composto de simplicidade: Ana Dias.
Meus medos eram as berinjelas. Do jardim afloravam margaridas, as quais eu colhia envolvido por um chale azul com gorro de pom-pom que caía carinhosamente nas minhas bochechas magras de menino. Eu jamais podia imaginar que vivia - e era - um componente da paisagem. Um verso da poesia. A mangueira frondosa amenizava o sol nos meus cachosencaracolados claros - pixaim; onde os piolhos alvoroçavam o couro - e de onde eu me balançava sobre as cordas amarradas - lá no alto - fincando entre mim e o chão uma massa de espaço: espaço este que eu ignorava raspando os pés na terra, no vai e vem dos empurrões de meus irmãos. Ali vivia a felicidade: aquela ingênua sensação das maravilhas. Minhas mãos mal envolviam as cordas do brinquedo, mas uma espécie de delícias afogava em meu olhos a alegria que enche o peito, e ficava ali, entre o meu catarro, e eu sorria contente com o vento. Nossas latas de leite - sucateadas pela vizinhança - cheias de areia eram nosso brinquedo mais pesado - amarradas em arames eram carros, caminhões, tratores, ônibus que arrastávamos plenos de equilíbrio: os pés ligeiros a fazer voltas pela rua longa e reta. Gostávamos de correr em círculos. Mas há quem diga que eu gostava mesmo era de brincar de bonecas de milho. Descabelava-as; fraquinhas que eram dos capilares.
Minha mãe há de se lembrar de tudo isso, com aquela ternura nos lábios - de leve sorriso.
Alexandre Pedro - Rua Projetada

sábado, 3 de maio de 2014

Inércia

Fitava a inércia da água depositada no copo de vidro transparente sobre o plano da mesa em mármore branco. Uma réstia de sol invadia o espaço lentamente aquecendo a friagem úmida da policromada moldura que envolvia os vidros da janela. A claridade onipresente até mesmo nos cantos mais recônditos da gaveta dos talheres misturados. Todas as coisas em estado de paralisia. O relógio em formato de meia chaleira sobre a soleira da porta contava as horas inteiras - em algarismos romanos - adesivados cuidadosamente no esmaltado branco fixado entre os quatro azulejos acinzentados. Reinava ali o tempo. A poeira se depositava, partícula por partícula, inexplicavelmente invisível, formando fina crosta engordurada sobre os ponteiros do relógio. O tempo das coisas permanecia imóvel, o ao redor envelhecia.
Com os antebraços sobre os cinco fronteiriços centímetros da mesa fitava a água tripidante-circulares na borda arredondada do copo; as mãos descansavam o queixo. Uma molécula de água se desprendia, incolor, criando volume de oxigênio ao subir, do fundo pressionado de sua massa e alcançava a linha do horizonte, observando de cima a fraca sombra da qual pertencia. Foi quando, em singular movimento - brusco, estilhaçou o fio do pensamento sorvendo de um só gole a transparência daquela liquidez matinal. A água lhe escorreu pelas paredes da garganta refrescando as amígdalas e continuamente seguiu corpo adentro naquela imensa vermelhidão. Seus pés lentamente destocaram o chão, seus braços como que levitaram, seu queixo afundou pesado com a recusa do que seria um dia de sol. Na janela lateral algumas pequeninas gotas marulhavam o falso zinco do policromado inox. Uma folha da planta no vaso ao lado acenava quase imperceptível para a manhã que se fechava trazendo, em gotículas, melancólica tempestade. O copo depositado sobre a mesa. Ainda úmido; gótico.
Alexandre Pedro


sábado, 26 de abril de 2014

Blackout


A claridade - de repente - ofuscou-lhe a vista,
a iris como que se fechou em arco.

Da enrugada pele sob as sobrancelhas, causada pelo desconforto de enxergar, ficou a placidez do abandono - um quase quê de mansidão, não fosse a solidão lacrimejada deixada pelas meninas dos olhos - que se afogaram na visão.

Restava, agora, a percepção:
De um "óleo sobre tela", há muito escorrendo nas paredes de um museu, trouxera a lembrança de uma árvore, cujo tronco fino, divisava a cena, quase imperceptível, pois fora colocado ao fundo do cenário, onde só olhos mais aguçados o alcançariam.
A luz que o verniz sobre o tecido com cores reproduzia, posto que é neutro, abrandava sua inexperiente escuridão.
Só havia feito saber ser sol, lua, estrela - nunca avistara as distâncias.

Era menina,
nos olhos, na boca, no vestido.
Nas mãos - era menino.

Tentou apalpar raios de sol, puxar os fios de cabelos da chuva.

Foi abrindo caminhos em meio à escuridão. Contando os passos - sonoros passos - em direção ao fino tronco de árvore de sua lembrança. Sua única esperança é que ele nunca se esvaísse na imensidão em que eles, agora, habitavam.
Alexandre Pedro - Blackout
Imagem: Michael Peck

sábado, 5 de abril de 2014

Obscuro Inefável

Segue junto a mim, nesses dias claros, uma quase transparente sombra.
Que por tanta transparência desconfio de que seja plácida.
Mas é pesada minha sombra e o caminho pedregoso. 
Ao invés de seguir-me os passos, carrega-me nos braços - como vulto - de canto a canto - preso ao chão.
Quem dera poder narrar de onde me leva minha sombra! 
Alexandre Pedro 
Imagem: Alexandre Pedro

segunda-feira, 31 de março de 2014

Fotossíntese


revelar o que é corpo
sob luz e água 
alimentar o que é terra
e fogo - com a própria terra: chama.
clorofilar o verde - o azul - o vermelho
em processo de foto e grafia - vivas -
para me ser foto - síntese.
Alexandre Pedro 

Imagem: autor desconhecido

terça-feira, 25 de março de 2014

Maternidade



Sobre o colo,
leve,
o terno peso de ser só um,
e dois.
O corpo recém descoberto,
completo feito flor:
mulher.
Os seios cheios de leite,
maduros,
sensíveis à gravidade de ser mãe.
Alexandre Pedro

Imagem: Mother and child, Klimt

sexta-feira, 21 de março de 2014

Logopeia

Se fosse eu o assassino de meus pronomes atiraria em tu. 
Uma única bala e som.
Não me renderia à covardia de ser suicida de mim
para fazer morrer o eu.
Mas, talvez, eu me agonizasse em nós.
Alexandre Pedro


Imagem: autor desconhecido

quarta-feira, 19 de março de 2014

Sem retrato e sem paisagem

"A uma certa idade nos questionamos sobre o que ficará, e como, as coisas nos lugares em que estão e estiveram durante a nossa vida inteira. E depois, o que ficará de uma vida?
Restará os espaços vazios atrás da estante acumulando poeira? Os espaços entre os móveis? - Restará aquele vinco no lençol? O vazio estreito percorrido entre os cômodos da casa?
Sim. Ficará o vazio emoldurando a escultura que sustenta o canto da sala e o jardim, uma moldura, sem retrato e sem paisagem, envelhecida, dependurada na parede, servindo apenas como enquadramento para um vazio. Uma torneira presa ao cano em pvc ressequido, saudosa de uns gotejares. Também este plasma em tessitura franzina em minha pele mais fina. Restará, restará.
- Restará um poema de Drummond me apontando a direção..."
Alexandre Pedro

Imagem: Alexandre Pedro 

terça-feira, 18 de março de 2014

Lamento

De lá do alto ouvia-se o homem ao longe. Daqui já não se ouve.
Eu, derrubada, contarei a você da minha queda, rapidamente.
Durou segundos a passagem do meu para o seu mundo.
Talvez eu devesse te culpar, ou rogar-lhe uma praga, mas esse tipo de comportamento não existe no meu mundo, de modo que eu estou aqui, no seu, metamorfoseando-me em castigo fatal. Mas me deixe narrar minha queda antes que chegue a tua.
Eu podia ouvir o terror dos motores ao longe se aproximando feito vozes dos tuberculosos. Às vezes engasgavam,os motores, e era quando havia algum suspiro mais longo, que alguém morria. Nosso grito durante a queda ninguém ouvia porque era abafado pelo grito do lenhador. Madeira!
Caía, derrubando os meus, soterrando os brotos, sufocando sementes. Caía muda. Braços abertos, indefesos. As folhas farfalhando em adeus, terra dos dinossauros.
Pois bem, meus caros. Trago a mata virgem na memória desmatada e tenho pena de vós.
Alexandre Pedro

Imagem: Alexandre Pedro 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pontos de Fuga

Todas as retas são metas falsas. O que nos comprimem, e sufocam, são os ângulos. A geometria vai até aonde alcança o pensamento, tendo como matéria prima a própria matéria prima. É possível trancar meu corpo entre 4 linhas retas, mas não encarcerar a mim. A morte é o ponto final do pensamento, vejam bem: o caixão é a forma mais fúnebre da geometria. A realidade é só um ponto de vista e pontos de fuga são apenas ensaios.
A perspectiva é o princípio da enganação. Se me olho no espelho eu não vejo a mim, vejo o aço, o vidro e o reflexo; e o meu cansaço.
Me perguntam, agora, aonde quero chegar com isto; quero atingir o maior grau da incoerência e mostrar que a linha do horizonte é côncava.
Alexandre Pedro

Imagem: Alexandre Pedro

sábado, 15 de março de 2014


Abri,
e imediatamente fechei a geladeira. Assustado por nada ter havido entre as garrafas de água, no vidro de leite branco de gola suja; na magnífica forma de se fazer gelo.
Abri - novamente. Me atentei ao limo anoitecido que se começava formar na bandeja de verduras.
A luz, ansiosa pelo tocar da porta, obedecida, mantinha os olhos abertos e nem piscava. Entre mim e as coisas na geladeira um olhar se mantinha aceso. Observador. Cerrei os olhos - estava eu entre a quase meia dúzia de ovos, entre as latas de cervejas lacradas, entre os entres das coisas.
E na escuridão do silêncio gelado, engavetado, entre, eu me petrificava
e derretia.
Alexandre Pedro

Imagem: Manabu Mabe

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Natureza Morta

A minha ignorância naquilo que não sei é o que me faz poeta. Porque vasculho tudo o que a mim se omite, e esconde, para ver minar minha indulgência.
Se sabores tão diversos e 
cuidadosamente esculpidos em riquíssimo olhar, assim como as cores dos pássaros, as flores e as borboletas, a síntese me busca em antítese para me ser tese.
Alexandre Pedro

Imgem:Natureza-morta com livros,mestre flamengo desconhecido,óleo s/madeira, c.1628

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O costume das estrelas é piscar

Ela era negra e mascava o desgaste branco do chiclete. Havia sido bela; o belo se lhe fazia agressor. Seu nome era Carrie. Falava manso, sorria tridente, mas trazia um riso mergulhado em molho tártaro. Comia com gosto o que não tem sabor. As fisgadas na curvatura vocálica faziam-na entender, e unicamente entender, que o costume das estrelas é piscar. E piscava trepidamente como que estivesse sempre em convulsão.
Em menina fora batizada na cozinha quando, por baixo da chaleira de água quente carregada pela mãe, passou correndo; fingia brincar. O espírito santo imediatamente se fez presente e deixou enorme cicatriz: marca de devoção eterna. A vida já não estava de brincadeira e lhe sorria. Carrie respondia sorvendo a saliva suja de entre os dentes: sua voz imitava a um ralo de lavanderia.
Agora, mulher feita, borbulhava feito lava dentro de um enorme cone de vulcão: Era a vida que, funilando toda ela, lhe sorvia. Carrie era o suco gástrico da inocência, e corroendo-se por dentro, o seu corpo ia incrustando, feito lava seca.
Certa vez, Irene me disse, que a vida era uma dor de dente. Por isso, narrador, eu trago um sorriso banguela pra falar na urgência alheia: O costume das estrelas é piscar.
Alexandre Pedro - O costume das estrelas

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

5 Poemas do Flores do Ócio de Alexandre Pedro: pelo Portal Cronópios.
Agradecimentos sinceros ao Pipol Cronópios por incentivo e divulgação.
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5753
05/11/2013 23:45:00
Flores do ócio



Por Alexandre Pedro





Amor Tecido


Desperdicei a vida tecendo o amor;
Vagando sobre o amor tecido,
Sobre o amor ter sido
tão amortecido amor.



De lírios
Em teu jardim de lírios vejo coisas
e tenho medo de que as coisas
em delírios,
me vejam.




Dois braços
Hoje resolvi vestir uma camisa por cima da outra,
que é para sentir dois braços abraçando-me a carência.
Com o calor, me vi obrigado a amarrar as mangas
ao redor do corpo e amarrei com força pra sentir arder em mim, o desejo.
Depois, resolvi manter os botões bem abertos, e sentir o soprar do vento amenizando a minha
chama.



Inodoro
Eu sinto cheiro nas coisas opacas.
O brilho nas coisas sem cheiro.
Sinto o odor em mim, e o inodoro vazio.

Sinto um sentir, assim,
ausente de mim,

E tão presente,
Mutilado em mim
Por todos os lados.


Parasita
Minha fome tem o tamanho do mundo.
Sou, por acaso, o acaso que perdeu a inocência;
um parasita.
Nasci para a arte
de nada fazer
e a vida é a minha prova dos nove.
Vou somando horas,
subtraindo o tempo;
a vida me vai perpassando.
Deixando marcas;
na pele,
coração,
rasgando meu peito
e mostrando que se faz presente,
mas nunca deixando de esfregar em minha cara que está de partida,
e sente fome.



       *Poemas do livro Flores do Ócio



Sobre o livro: Os poemas de Flores do Ócio são um convite à brincadeira com as palavras na tentativa de burlar a insatisfação dos sentidos atribuídos a cada uma delas. O eu lírico salta de um poema para outro como num grande parque de diversão, mas é na certeza do voltar para casa que se rompe o fantástico e cai pesada a realidade dos amores partidos, da insatisfação social, dos sonhos, da certeza da morte e da Loucura, da solidão...e da própria poesia. O livro é perpassado por um “filete” de fumaça que vai costurando em aliterações e assonâncias um tecido lírico, e o resultado são jogos sinestésicos sob o uso de figuras de linguagem como a metáfora, a ironia, o paradoxo, propostos ao leitor a desvendar a poesia em cada palavra. Afinal, eis que uma flor (enclausurada) vem brotando do ócio.


                                                 * * *
 
Alexandre Pedro formou-se em Letras em 2012, na cidade de São Paulo, onde vive. Mantém um blog, Cárcere do Ser, para dissertar sobre trabalhos de outros autores. O blog tem cerca de 39.891 acessos. No curso de Letras, participou de um concurso de poesia e foi vencedor. Em 2013 lançou seu primeiro livro de poemas, intitulado Flores do Ócio, pela editora Giostri. Oautor dedica-se também ao projeto coletivo "doam-se palavras", com Adrienne Myrtes, Ale Safra, Aleksandro da Costa, Caroline Ramos, Claudio Brittes, Hugo Guimarães e Otavio Ranzani, que será lançado na Balada Literária de 2013. Blog:http://carceredoser.blogspot.com.br  Projeto "doam-se palavras":http://doamsepalavras.com.br  E-mail: alexandre.eells@gmail.com
Licença Creative Commons

Outras publicações de Alexandre Pedro no Cronópios.

Entrevista sobre o livro Flores do Ócio para o Reboco Caído; por Fabio da Silva Barbosa:



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quero um amor que não me traga a saudade embrulhada em papel presente. Quero mantê-la distante, lacrada e intacta. Quero, antes, a ausência das mãos pesadas da saudade batendo nas pilastras que protegem minha aorta, que passivamente se contrai.
...quero ter a lembrança das constelações de municípios arremessando-me a momentos, instantes, e sentir saudade apenas das vielas pelas quais passei.
Alexandre Pedro
Imagem: Alexander Calder 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Olá, encarcerados. O texto "Agonizar Constante" de minha autoria foi publicado na edição de nº 6 da Revista Politicamente Incorreto ao Quadrado. Acessem; tem outros artistas pintores e autores incríveis. Conteúdo muito interessante! Obrigado!
*A capa desta edição da revista é do artista Alcídio Marques (imagem abaixo)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Lançamento do meu livro Flores do Ócio - 26 de Outubro 2013


Amigos, hoje não trago palavras, trago poesia em forma de objeto.
Vocês tornaram este espaço virtual em realidade; minha realidade atual. Estão todos convidados honrosamente ao lançamento do meu primeiro livro de poesia, Flores do Ócio, que agora é de vocês, encarcerados. E, depois, vamos desamarrar as mangas da camisa de força e comemorar com bebedeiras na Pça Roosevelt.
Muito obrigado!!!!
Alexandre Pedro

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Não sou bom em aperfeiçoamento. O que está feito, é. Quando não consigo terminar um poema, eu assino, que é pra ficar com cara de pronto. E fica.
Minha poesia não é para ser estendida; deve ser sentida e compreendida dentro de sua incoerência.
A matéria prima da minha poesia é a discrepância. A proteína da poesia é quase gravitacional: assim, como se no meio da noite o sol surgisse, de súbito, e o lirismo noturno caísse, também de súbito, em matéria no chão.
A poesia não é pra ter começo meio e fim; é pra ser descoordenada (naquilo que não tem ordem; desordenada). Tem de haver o homicído pra fazer nascer o álibi.
Alexandre Pedro
Prosa (e lorotas) para os meus versos; 
Imagem: Perfomance, Pina Bausch

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Copos de Leite


Copos de leite

Em tubos de ensaio fui levar um tanto de água ao mar, 
depois ensaiei levar em copos; era para inundar um mar em mim.
A efervescência da água borbulhante na areia inspirou-me que levasse leite.
Voltei em vários copos de longa vida frescos. Eu ia e vinha, ia e vinha, metaforizando o mar encostado nas pedras; o sol nos espionando a pele. 
Até que, em mim, nesse ir e vir, afoguei um oceâno com o leite já acima do umbigo. O mar, marulhando, se recolhendo todo, e eu me refazia na linha do horizonte; os olhos ainda trêmulos. 
Alexandre Pedro

Imagem: Projeto Coletivo Parábola
http://www.coletivoparabola.com/

domingo, 21 de julho de 2013

Abacateiro


Abacateiro
Quando criança havia um jardim e um pomar em nossa casa. Minha mãe era a rosa maior e mais bela. Nós, irmãos, éramos as ramificações da família. Aprendi a escrever debaixo do

abacateiro; o abc era dependurado na sinestesia. Minha inocência era um beija flor. Não importava se fazia sol ou chuva, do solo sorriam os girassóis.
Em um dia tempestuoso caiu um raio no pé de abacate e, a videira enviuvou.
De dia reluziam estrelas do pé de carambola e os vagalumes faziam ronda durante a noite. O pé de pitanga era enfeitado; colares de miçangas sobre os galhos. Na jaqueira brincava nosso playground, sorria um balanço desequilibrado nela. Meu pai quem o fez. Mas papai não era representado em árvores; havia, sim, um mamoeiro com as iniciais de papai e mamãe dentro de um coração já esgarçado. Só a cara dele era de pau.
Um dia, os vizinhos vieram colher mudas de nossas plantas.
Não sobrou nada daquela infância, só a rosa mais bela e suas ramificações. Ah, e as letras do abacateiro dependuradas sobre os galhos da memória que uso para escrever essas lembranças.
Alexandre Pedro

sábado, 22 de junho de 2013

Cata Vento


Cata Vento

Naquilo havia vigor. Era mortificante, mortilenta, a passagem do vento:
A história sendo sugada pelo cata-vento que girava e girava e girava.
Esse foi o dia em que acomodamos a história no acostamento pra gente passar.
E passamos.
De peito inflado, braços dados e em altos brados,
carregando no colo o projeto da NOSSA História.

Alexandre Pedro


17.06.2013 (Movimento Passe livre - SP)
Fotografia: Alexandre Pedro 

Beligerância


Beligerância

A poesia não entra em luto:
Infiltra-se no barro
Nas pedras,
No mato,
Nas mesquinharias
E se rompe em grandeza:
Autoritária.
Calem-se os porcos,
Grunhidos não nos proferem! - em radical e léxico.
As cobras sibilam, venenosas: traiçoeiras.
Urremos todos feito leões: 
Proteção às mães, 
de seus embriões.
Esta é a luta da poesia contra o luto. E então, duelemos?!

Alexandre Pedro

PS: não confundamos Patriotismo com Nacionalismo. Na dúvida vire, à esquerda. "E está dito o necessário".

18.06.2013 (Movimento Passe Livre - SP) 
Fotografia: Alexandre Pedro 

sexta-feira, 21 de junho de 2013


Colápso (individual)

Depois de toda luta, ainda que vitorioza, vem a angústia. O triunfo está na superaçao dessa angústia. Se não houver a vitoria haverá essa angústia cancerígena. Supere-a também. Faça vigília. Sentinelas o espreitam: você olha e não vê.
A guerra vem sempre dessa insatisfação com a satisfação das coisas sofisticadas. 

Alexandre Pedro


Arte: “Colapso”; Vasco Vidigal and Carlos Norton.
http://www.radia.fm/?p=952

19.06.2013

sábado, 8 de junho de 2013

Avesso do Avesso do Avesso



"tudo em mim me foi às avessas.
quando criança adulto fui, 
adulto permaneço criança. 
eu poderia ter sido engenheiro do petróleo: 
enclausurei-me em palavras; me tornei poeta.
- E continuo preso ao avesso do que sou."
Alexandre Pedro

Imagem:Workshop: 'Avesso' - processo de criação, inspirado na peça 'Avesso da Alma' apresentada no Teatro de Arena do CCJ em 2012.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Amador


Das coisas que me tenho sou amante; das que não tenho, penso, vejo ou sinto, sou amador. No sentido pleno da palavra sou amador. Sou amador dos amores impossíveis, dos possíveis sou amante. Sou amante amador das almas desalmadas. Sou amador da palavra e amante da poesia. Sou o contraste e o quê de ambíguo no borrão manchado do contrato onde impregna as minhas digitais. Sou amante do vício e amador do tempo. Sou amante dos de pudores tantos que se pudores não tivessem me condenariam. Sou amador do condenável, e nunca do que fora consumado. Sou amador dos sonhos; do consumado, sou amante.
Alexandre Pedro 
*imagem: Doug Beasley; Heartrock
 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A pior de todas as carências é quando se quer 
- consciente da carência - 
ser querido.

Fotografia e texto: Alexandre Pedro

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Quarto de hóspede
Meu sono dorme no quarto de hóspede ao lado, distante das perturbações que vagam meu quarto cheio de sonhos. 
Numa noite de claridade tênue amputarei os meus sonhos todos, que é pra eles me deixarem dormir, pois de pernas pesadas não me desprendem do chão. E, sobre ponta de pés, deixarei a Insônia no meu quarto próprio e deitarei na cama do quarto de hóspede ao lado. 
Quando o sono enfim chegar, vou decepar as suas asas e com elas  encobrir meus desesperos. Os cílios cansados da mortalha escura que envolve meus olhos se fecharão numa calmaria terna onde haverá só o silêncio, e, se eu suportá-lo, dormirei tranquilo.
Alexandre Pedro

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ficou lá na máquina de lavar a cicatriz que vivia no canhoto dos teus braços junto às marcas de batom que habitaram os seus lábios e que, volta e meia, descansavam envolvidas pelo teu abraço. A porta batida à suas costas, junto à tv, cinzeiros e os caprichos todos que me dedicavas partiram juntos. Ficou apenas a camisa suja do seu time batendo descompassadamente na lavanderia, e é com ela que eu sento junto à tv, cinzeiro ao lado, e trago com o esquerdo dos meus braços o último cigarro em tua homenagem, segurando com o direito a camisa suja sobre a ferida viva que habita o centro do meu peito esquerdo. 
Alexandre Pedro

sábado, 27 de abril de 2013

Abismo- in my solitude
A ausência dos teus braços me envolve o corpo numa calmaria inexplicável, pois o peito queima, a saudade arde e os sentidos perdem-se...
*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.

Alexandre Pedro

Arte: Louise Bourgeois

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Contra o Sono
- Que sensação é essa diante do sono?

*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
Agradeço muito a visita e o carinho dedicado.

Alexandre Pedro


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Flora

Porque hão de falar da beleza descansada de todas as flores... - 
*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio. Em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tronco 


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Alexandre Pedro

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Corpocoisa

Da mesma dor que ontém chorava, hoje ri, 
formando copiosa forma corpocoisa...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio,  e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro


*Imagem: George Dubinsky

terça-feira, 26 de março de 2013

Poesia ao acaso;

Uma elipse no teclado...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio,  e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

quinta-feira, 21 de março de 2013

O respiro do rio: 
Tralham as águas e as gralhas por sob os galhos que farfalham reverência ao riο...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio,  e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

sábado, 2 de março de 2013



Hoje a noite terá borboletas em origami...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio,  e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro



Imagem: Alexander Calder - Móbile

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entre vírgulas 

Só queria saber o que ficou escrito... *Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

sábado, 16 de fevereiro de 2013

‎Da penunbra que esconde a silhueta sua...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

*Releitura da obra de Milo Manara 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013


Minha fome tem o tamanho do mundo.
Sou, por acaso, o acaso que perdeu a inocência...
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Alexandre Pedro



Imagem do artista plástico José Leonilson (1957-1993)
Direitos Reservados ao Projeto Leonilson
http://www.projetoleonilson.com.br

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Dois travesseiros

Quando comprei dois travesseiros estava incluindo seus sonhos...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Cárcere do Ser
Não consigo me abster dos meus pensamentos que me abastecem com pilares de catedrais a transformar-me a voz em capela. Capela do aprisionamento, e meu refluxo é um blog que se chama Cárcere do Ser e me aprisiona todo. Meus pensamentos tornam-se público na busca incessante de me dividir em outros, e viver a leveza das coisas sentidas nas palavras de outros outros. Não me tenho a intenção de compartilhar pesos; quero antes, esvaziar-me todo, e esvaziar-te também, e ter de você, a leveza dos seus sentidos a aliviarem os meus...

Alexandre Pedro

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013



Varal dos sentimentos
Despi-me da corpo,estendi minha saudade no varal dos sentimentos...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Faísca

eu vou atear fogo no teu vácuo...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Assassinando Estrelas


Estava, eu, a assassinar estrelas...*Esta publicação foi removida devido ao texto estar sendo integrado ao livro de estreia do autor, intitulado Flores do Ócio, e que será lançado em breve pela Giostri Editora. Mais informações: alexandre.eells@gmail.com
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Alexandre Pedro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013


O amanhã chegou antecipadamente, rompendo com a madrugada, a noite.
era dia de folga e acordamos atordoados pelo despertador
com seus ponteiros mirados pra nossas cabeças raspadas.
era dia de 'dia de maria' e levantamos 'Joãos'.
juntamos os trapos e saímos de casa
pra buscar, nas sombras, nossas sobras.
...e o que restara de nós se não (há) a sombra?
Alexandre Pedro

domingo, 2 de dezembro de 2012



Poema à Virginia:


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Alexandre Pedro



Virginia Woolf escreveu uma carta ao marido, e suicidou: Trajando um sobretudo foi coletando pedras e colocando-as nos bolsos e se entregou ao rio Ouse.

Carta de despedida de Virginia Woolf a seu marido Leonard Woolf

"Meu Muito Querido:

Tenho a certeza de que estou novamente a enlouquecer: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou a começar a ouvir vozes e não me consigo concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.

Deste-me a maior felicidade possível. Foste em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou a destruir a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler.

O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Foste inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.

Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.

Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos."

Virginia Woolf

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Virginia Woolf (Inglaterra, 25/1/1882 - 28/3/1941)
Imagem: Nicole Kidman interpretando Virginia em cena de The Hours.