
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
Breve sobre o poema Retrato:
No Poema Retrato, Cecília nos faz refletir não sobre a idade que se chega e sim a que se perde. O eu-lírico no poema não percebe a vida passando por entre seus dedos, e quando pára pra se auto-analisar, percebe a vida de algo já consumado. Ainda assim, a personagem não sente pela velhice, repare:
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro".
Percebe-se nesta passagem que a personagem embora se dê conta da velhice, esta não a incomoda, ela permanece calma, diante da revelação do espelho/retrato.
"eu não tinha este coração
que nem se mostra".
Indiferença do eu-lírico em relação à idade.
E é tudo tão novo, e mágico que a personagem se pergunta:
"- Em que espelho ficou perdida a minha face?"
Por Alexandre Pedro
Deixo outro poema, "Motivo - Cecília Meireles ", pra que seja refletido e discutido, que tal?
-----------------------------------------------------------------
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Autor: Cecília Meireles
Querido alexandre, lindíssima imagem e poesia. Eu guardo comigo essa imagem e sempre fico a olhar e meus pensamentos embarcam de norte a sul... e, agora ela está no local certo e com as palavras certas. Parabéns. Me emociona por demais. Obrigada.
ResponderExcluirAmei seu recado no Mínimo. Me senti honrada.
Com amor e carinho,
Sílvia