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O relógio passa viciosamente do outro lado da rua.
Ouço seus passos a tiquetaquear lentamente pelas paredes
daqui.
Vou perdendo a lucidez; macerando-me os pensamentos, mortificando-me no
vácuo do vazio do silêncio.
Vou ganhando horas e perdendo o tempo. Envelhecendo aos
cacos, esfarpelando-me o corpo.
A cabeça a confrontar meu corpo que só me faz
fazer um desespero. Assim, leve, tenro e diminuto.
De minuto em minutos a vida vai gotejando.
Pra onde vai a vida que esvai?
Não sei; definitivamente, não sei!
Meus poros vão se fechando, afunilando-me em estreita
fidelidade ao corpo.
Meu corpo já não me é fiel; briga comigo todos os dias, e
me atrofia num cansaço do tédio de não estar cansado.
Minha expressão me é tão natural que tenho a cara de quem
sente nojo.
É imensamente difícil ver aproximar os quarenta se já não
somos jovens, nem idosos. Há uma fenda no tempo; um dormir profundo em sonhos
perturbadores que nos deixam inseguros; deslocados da realidade dos anos
contados. É um perder-se constante entre tantos, de idades múltiplas, que nos
não deixam dormir.
Corro, contra tudo em mim, a buscar resquícios de razão
no superlativo dos meus resíduos e desconserto.
Meu escape é uma brochura de
desassossego. Pessoa o fez pra mim.
Alexandre Pedro
Faz tanto tempo que sou incapaz
ResponderExcluirDe escrever um poema extenso...
Muitos anos, por assim dizer,
Muitos anos...
Creio que perdi a virtude,
A capacidade ritmica
De dar forma as palavras,
De injetar alma
Ao corpo da idéia,
Que antes, em mim
Era espontânea e livre...
Agora sou consciente demais,
Racional demais,
Perdi aquela intuição
Que me direcionava
Para certa direção precisa,
Que não era necessário
Esforço em demasia
Mas apenas me deixar livre
Como uma pipa solta no ar...
Agora estou com a alma
Atada ao meu corpo
Que é pesado demais,
Denso demais...
Outrora
Escrevia Odes triunfais,
Épicos, sagas de heróis
Cruzando os mares,
Poemas que eram
Verdadeiros tratados filosóficos.
Mas agora
O que me resta?
Um sol que se põe,
Um dia vivido sem nenhum esforço,
Uma brisa apenas
Que me dá a consciência do ar
Que eu mal respiro,
Nenhum esboço significativo,
Nenhuma palavra chave,
Nenhum enigma a ser desvendado...
Nada! Nada!
E os meus planos?
Os meus planos!
Ora! Os meus planos!
De uma obra imortal,
De uma manchete no jornal,
Do prêmio Nobel!
Tudo delírio...
Um delírio banal!
Agora
Nenhuma estrofe,
Nem se quer um soneto singelo...
Agora fico só em casa
Afundado no sofá
Sem camisa e sem chinelos,
Pensando em todas as religiões do mundo
Que não me entretém
Com seus sermões...
Mas então
O que significa tudo isso,
Se não tenho compromissos
Nem com a literatura
E nem mesmo comigo.
Para quê então escrever
Se ninguém mesmo vai ler,
Nem se quer os meus amigos?
Mesmo porque eu não tenho amigos,
Só mesmo estes livros
Que eu insisto em reler...
Ah! Mas porque eu estou pensando tanto?
Malhas sobre malhas
Formando um todo sem todo,
Pano que não sei
Se é para um vestido
Ou para nada...
Alma que eu não sei
Se é para sentir
Ou para viver?
Para que tanta impaciência,
Curiosidade, atenção?
Se sou um vulto inexistente
Sem passado e sem presente,
Objeto inútil e curioso
Que se passa de mão em mão?
Eu aqui... Eu aqui...
Aqui... Definitivamente aqui...
Afundado no sofá
Cheio de vagas esperanças
Que não valem nada,
Ao relento de todos os sonhos...
Eu que tenho sido
Muitas vezes cômico,
Que tenho sido inútil, incongruente e fútil...
Eu estou aqui...
Irremediavelmente aqui...
E o que é essa casa?
O que é essa noite?
O que é essa chuva?
Estou cansado...
Apenas isso, estou cansado...
Estou cansado e não consigo escrever...
Estou cansado do sossego da noite
E de meu desassossego de noite...
Do silêncio que se acentua
Porque zumbe e murmura
Como uma coisa estranha no escuro...
Estou cansado
Como um cão que vai morrer
E por isso se recolhe num canto
Com os olhos marejados...
Oh! opressão de tudo isso!
Esqueci-me de esquecer-me.
E estou aqui,
Vaga náusea,
Doença incerta de me sentir...
Sempre esta inquietação,
Sempre!
Este mal estar,
Sempre! Sempre! Sempre!
Este desejo de escrever
E não escrever...
Que pena
Todos os dias serem assim,
Da noite ser eterna dentro de mim
E ser interminável a madrugada.
(esta é uma das re-leituras (re-escrituras) que fiz de Pessoa, veja na postagem "O Engenheiro metafísico")
Você conhece o Quintal Cultural aí de Carapicuíba? Belo texto. um abraço.
Em todo caminho, há o trecho que fica no meio. Como no paradoxo de Zenão, nunca chegamos a lugar algum porque sempre falta metade do trajeto.
ResponderExcluirNo dia do níver, parece que alguma caricatura se potencializa. Às vezes ela sorri; noutras, é carranca.
Mas, conforme os primitivos, as carrancas afastam mau-olhado. Se por um lado a juventude já não viceja, temos a recompensa ao reconhecer caminhos sem ilusões.
Porque a escola da vida pode ser gratuita, mas seus ensinamentos são caríssimos.
Gabriel...lindo trabalho sua releitura. Amei! Não conheço o Quintal Cultural; vou pesquisar...preciso conhecer; estou largado aqui! rs..muito obrigado pelo teu comentário, carinho e pela dica. Forte abraço!!
ResponderExcluirDaniel, meu querido...vc parece me conhecer tão bem! :))
Obrigado pelo carinho dos dois!
Abração!!
Ale